Minha experiência com a Sananga.
Já faz anos que sofro com uma alergia nos olhos, algo, disseram, por baixo das pálpebras que me faz ter os olhos sempre secos mesmo que não tenha nenhum problema de lubrificação. Já fui a muitos oftalmologistas, já usei todos os colírios possíveis, antialérgicos e coisas, e nada nunca me ajudou o suficiente.
Também há anos to inseridas em meios espirituais e entre pessoas que utilizam medicinas ditas alternativas, tradicionais, e com práticas energéticas e coisas do tipo. Assim ouvi falar da sananga, um colírio indígena amazônico, e desde então guardo a curiosidade de testar.
No sul do Brasil, é difícil encontrar essas coisas que vem da amazônia. Muito longe, e muito inseguro também conseguir esse tipo de coisa por internet quando tem tão pouca informação... colírio indígena, limpeza, abrir terceiro olho, limpar sujeiras espirituais, usado pra caça, melhora a visão e insira aqui a lista de todos os problemas nos olhos. Sempre que podia, perguntava pras pessoas dos centros espirituais se conheciam e tinham acesso, e nada. Assim passaram os anos.
Penso, agora, que foi bom ter encontrado essa medicina justo nesse momento da vida. Tem coisas que se precisa amadurecer em alguns aspectos, e eu tava viajando, morando na Bolívia por meio ano e viajando pelo Peru, descobrindo muitas coisas de mim e do mundo, mais aberta pra dores e mais preparada pra entrar em contato com coisas profundas. A sananga é forte como eu não fazia ideia.
Um dia, em Cusco no Peru, fui a Pisac, uma parte del Valle Sagrado de los Inkas. De uma série de coisas por lá, terminei junto a duas pessoas bem ligadas à ayahuasca e San Pedro e perguntei da sananga. Consegui um contato confiável no Mercado San Pedro em Cusco, mandei mensagem pro dono da tienda e fui lá no outro dia. Era uma mulher atendendo na loja de diversos artigos ritualísticos e diferentes medicinas. Perguntei do colírio, ela disse que tinha, pedi umas orientações e ela perguntou se eu queria provar. Claro, pues.
Estava com um amigo argentino. Os mercados que conheci pela Bolívia e Peru me foram desde sempre bem ansiogênicos, mas nesse dia eu tava tranquila apesar da muita gente, muita informação, muito barulho, tudo muito muito muito. Sentei num banco, botei a cabeça pra trás, eu tava insegura e com um pouco de medo da dor que sabia ser inevitável. Já tinha lido que dói quase insuportavelmente por alguns minutos, e, como meus olhos são bem sensíveis, sabia que ia ser duro. Mas melhor provar com alguém que sabe do que depois, sozinha em casa.
A dor de fato foi intensa. Apertava os olhos, ela dizia pra eu abrir e fechar mas era impossível, como um adormecimento, mas ao mesmo tempo como se meus olhos estivessem colados. Senti desespero, achei que não ia mais conseguir abrir porque parecia que não ia passar, a dor era intensa. O reflexo é direcionar a cabeça pra baixo, mas ela dizia pra eu seguir voltada pra cima pra que não saísse a medicina junto com as lágrimas, muitas lágrimas.
Meu rosto inteiro formigava, sentia muco no nariz, a cara toda molhada de lágrimas que eu nem sentia cair de tanto que me doíam os olhos. O argentino tava meio assustado, ele não fazia ideia do que ia acontecer quando recebi as gotas. Não sei quanto tempo durou, acho que não muito, mas parecia bem longo. Ela me dizia pra abrir e fechar os olhos, e eu fazia isso conforme podia. Aos poucos foi aliviando, continuei sentindo o formigamento, e, depois que já conseguia falar, passei a sentir outras coisas.
Fisicamente, os olhos e nariz mais limpos. Sede, também. E logo senti algo muito forte no peito, algo como... paz, felicidade, completude. Algo forte e bonito, luminoso. As cores estavam levemente intensificadas e eu tava também levemente tonta, também um pouco distraída. Lembro que saímos andando na rua e eu tinha que me esforçar pra prestar atenção no trânsito, mas ao mesmo tempo tava bem atenta observando as frutas e pessoas do mercado. Caminhava sorrindo. Sentia estranhamente feliz.
Mas também me senti aberta, vulnerável. Pelo menos já aprendi a me proteger das energias dos outros e podia fazer isso enquanto caminhava na rua, pra não deixar vir um monte de coisas desconhecidas. Depois fomos ao Templo de la Luna e enfim, seguimos o dia depois da minha primeira experiência.
Agora vem a continuidade. Me disseram pra usar dia sim dia não por 15 dias e depois dar uma semana de descanso. Assim, segui o tratamento.
A primeira vez pedi que um amigo pingasse em mim, como a prova no mercado foi muito intensa, não achei que podia fazer sozinha. Também apliquei nele. Nessa segunda vez não doeu menos que na primeira, mas durou menos tempo. Isso parece ser uma constante, cada vez dura menos tempo a dor, mas não diminui a intensidade. Meu rosto não formigou tanto e da mesma forma senti algo no peito, uma completude gostosa.
A seguinte vez pinguei sozinha. Em um dos olhos não entrou a gota, e isso foi bem complicado porque, quando um olho começou a arder, eu já era incapaz de pingar no outro. Passei o dedo na gota que não tinha entrado e enfiei no olho, talvez tenha pingado outra pra fazer isso, não lembro. Mas funcionou. Depois já aprendi melhor a medir onde fica o canto dos meus olhos. Também foi ruim estar com o conta gotas na mão, queria soltar mas não sabia onde, não era capaz de colocar no frasco e não queria botar em qualquer lugar pra não contaminar. Segui segurando, e decidi que na próxima traria um prato ou um copo pra perto. É uma boa ideia, mas já aconteceu de eu errar o prato e largar em cima da mesa acidentalmente mesmo. Acontece.
Percebi que eu sinto quando devo usar ou não. Fui visitar minha família e não senti de usar lá com gente em casa. Esperei todos saírem e mesmo assim estava hesitante, mas segui. Pareceu doer mais, e não senti essa felicidade no peito. Tem muitas memórias na casa que me criei, e não queria me abrir pra elas. Foi bem diferente das outras vezes por isso.
Além disso tudo, tem os efeitos da sensibilidade, do pensamento, do encontro consigo. Isso é super sutil e intenso ao mesmo tempo. Sinto meus pensamentos mais claros, sinto que acesso melhor meus desejos e entendo melhor as coisas quando paro pra pensar/sentir. E, algo que me surpreendeu, quando sento pra meditar e fecho os olhos, vejo claramente um círculo cambiante no centro da minha testa. Nunca tinha visto isso na minha vida e é impressionante que aconteça. "Olho" pra ele enquanto medito e é muito bom.
Percebi outras coisas também, mas a ver com algo que to tratando conjuntamente com outras terapias, auriculopuntura e florais, então já se mesclam os efeitos e não sei dizer de onde vem cada coisa. Mas me encanta ver como em duas semanas de sananga e uma semana dessas duas outras terapias tanta coisa já mudou.
Amanhã é meu último dia dos 15 de tratamento. Na verdade sinto meus olhos mais secos que antes, mas acho que isso também faz parte do processo. Sei que a pausa também é uma etapa da melhora, e depois vou repetir os 15 dias. Outras coisas físicas que não comentei foi um certo inchaço nos olhos pela manhã mas que logo passa e um acúmulo gigante de remela, que deve ser expulsando o que tem que sair e o próprio resto da medicina.
Nunca pensei que um colírio podia trazer coisas tão intensas e nada físicas como o que me trouxe nesses dias, mas nunca duvidei da medicina da floresta e por isso não me surpreende. Sei também que, pra quem vive na não dicotomia entre ser humano e natureza, o físico e o espiritual tampouco são diferentes, e isso é algo incrível de experienciar. Agora, conectada com essa força, sigo meus processos.