sábado, 25 de maio de 2024

Tem lugares.

Tem lugares em que a gente seca,

Tem lugares que a gente mofa.

Onde seca, primeiro traz a surpresa: tu não sabe que vive em um lugar úmido até que sinta la sequedad. Mesmo se chove - sempre por poucos minutos uma garoa quase nula - as roupas secam no varal. A roupa seca, a pele seca, o alho seca, o olho seca, a terra seca. O ânimo seca, enrijece, endurece, o sentimento emudece. E, se molha, é demasiado mas logo escorre e passa, seca. Tudo seca, racha, quebra, é solitária a sequidão. Sin ganas, sin fuerzas.

Onde mofa sempre foi corriqueiro, normalidad. Perceber o mofo como algo distinto, entender a origem do mofo, a umidade. El moho desintegra, desjunta, despega, é um excesso oposto à solidão, é tanto, espécies, cores, efeitos, cheiros, esporos, é tanto. O ânimo derrete, se desfaz em uma dispersão imensa. Onde mofa é velho, passado, excesso. O que falta e o que sobra.

Sinto falta da secura, mas quando estava nela, sentia falta do que molha. Os seres vivos del moho tem ali algo de vida, de vivo, de vital, que o que seca não traz pues queda estéril. O úmido é vivo, até demais. De águas encharcadas vem lixo que não acaba, real e metafórico. Do vento seco a poeira, da enchente, a lama. Ambos não se acabam nunca. Ambos são fluxos que carregam algo de ser. Ambos são dor.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Colapso.

Quando digo pra alguém que to em surto, sinto que é exagero. Começo a chorar e penso que minha cabeça tá em colapso, mas sinto mal em expressar isso. Parece exagero, e mesmo eu me faço crer que é discurso demasiado. Tento amenizar o que sinto com pensamentos pra não parecer tão ruim, e com isso passo a mesmo duvidar do que to sentindo. Sem perceber que duvidar do próprio surto é pior que o surto em si, é tentar controlar o surto e guardar ele em algum canto do dentro pra que a qualquer momento exploda inesperadamente enquanto se fingia que não existia.
Sinto vulnerabilidade quando digo o que sinto pra alguém, mas não consigo deixar de dizer. Intensifico e amenizo, ao mesmo tempo, minhas palavras. Preciso mostrar que é sério, mas não sério demais. E preciso mostrar que to vivendo, apesar de em colapso. Difícil conciliar, e pior ainda pensar que isso tudo é só pros outros. O ideal seria simplesmente viver esses sentimentos, lidar com eles de maneira intuitiva, sem ter que explicar pra ninguém e sem ter que lidar antecipadamente com julgamentos que nem sei se vão vir. Mas, primeiramente, quem me julga sou eu. E não quero estar em surto, mas to.

Só de pensar em existir na minha casa já me sinto mal, apesar de gostar muito da minha casa. Ontem saí e não queria voltar, disse: minha casa tá deprimente. Claramente não é a casa que tá deprimente, e sim eu que to deprimida, mas a casa reflete. Chorei só de olhar pra minha cama cheia de roupas limpas esperando pra serem guardadas porque não me senti capaz de fazer isso, mas ao mesmo tempo ver a bagunça me despertou as piores sensações. Tento amenizar: pelo menos são roupas limpas; penso que poderia ser pior, e assim deslegitimo meu próprio sentimento.
Não tenho ânimo de limpar a sujeira, e escrevo em um computador em cima de cabelos e poeiras. Chorei ouvindo um miado do meu gato reclamando de qualquer coisa da vidinha dela, que não sei o quê porque não entendo miados. Só entendo que não tenho capacidade no momento pra lidar com um outro serzinho, se nem de mim consigo dar conta. Nenhuma de nós merece isso.
Mas o pior de tudo sou eu tentando fazer leviano algo que sinto tão sério. E de tanto pensar que poderia ser pior, paro de acreditar no quanto to mal. Parando de acreditar, paro de lidar com isso. E, parando de lidar com isso, fico mais mal. Só que, mesmo mais mal, ainda amenizo pra parecer melhor do que realmente é, e assim vai indo. E volta pros outros: preciso expressar meu estado, mas sem parecer exagero, e preciso também mostrar que posso viver uma vida mesmo estando em surto.
Não sei como conciliar tudo com os compromissos que a vida me obriga nesse momento da existência. A vontade é de largar tudo, mas as consequências disso seriam piores pra mim depois, que justamente to em crise porque quero que essa etapa acabe logo. É a escolha do meu desrespeito sobre mim mesmo pra que depois tudo fique mais tranquilo. Mas o quanto vale a pena, sinceramente me questiono. 

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Neurodiversidade.

Apesar de ao longo de toda minha vida eu ter vivido com essa condição, é extremamente recente o meu reconhecimento de mim mesmo como uma pessoa neurodivergente. Na verdade foi ontem a primeira vez que pensei assim: então eu sou neurodivergente. Antes disso já tinha dito em voz alta pra um amigo que não sou neurotípico, mas é diferente expressar uma afirmação do que uma negação. E afirmei pra mim mesmo com todas as letras que sou neurodivergente.

Mesmo que nos últimos meses já estivesse pensando nisso, agora se tornou uma realidade na minha vida. Um dia, quando tive uma crise forte no meio de um monte de neurotípicos, o que me ficou desse momento é que a maioria das pessoas não faz a mínima ideia de o que é passar por crises de ansiedade. Sempre dei esse nome pra tudo que passei e passo na vida desde que aprendi o que significa isso, ansiedade. Mas com o tempo fui percebendo que tem coisas além, que tem coisas que podem ser mais complexas, que não são causadas necessariamente por algo externo, mas que fazem parte do funcionamento natural do meu eu. 

Minha justificativa, desde que comecei a chamar tudo de ansiedade (algo que demorou muitos anos pra acontecer) era que tal coisa aumenta minha ansiedade, tal coisa me faz ter crise de ansiedade, tal outra coisa é ansiogênica, gente demais me dá ansiedade social, enfim, tudo assim. É bom ter um nome pra dar, pra não parecer mais uma nuvem de fumaça pairando sem ter o que encontrar atrás. De fato sofro de ansiedade, que não chamo de transtorno de ansiedade generalizada, nem de ansiedade crônica, só de ansiedade. 

Na situação dessa mesma crise que citei antes, até escrevi um texto falando que eu nunca vou superar essas coisas na minha vida. Sempre vi isso tudo que passo como algo que podia ter cura, algo que precisava tratar pra fazer passar, e que isso era possível. Naquele dia, percebi que não e isso me deprimiu muito, porque pensei que nunca na minha vida eu ia poder ser diferente daquilo e não sentir essas sensações tão intensas no pior sentido da palavra. Com a nova perspectiva de neurotipia, me sinto mais tranquila: de fato é algo meu, e que nunca vou conseguir tratar, mas porque não tem um tratamento. Não é um problema, não é uma doença, é minha condição. E, por pior que seja historicamente lidar com isso, essa sou eu.

Pensava que existia um eu abaixo dessas camadas de ansiedade, pensava que era algo colocado em mim pelas minhas vivências, algo fora de mim, que eu pudesse despir como uma roupa, mesmo que uma roupa intimamente colada com a cola mais poderosa do mundo. Me deixa feliz mudar essa opinião, me faz aceitar que tem coisas específicas minhas, que outras pessoas compartilham embora a maioria não tenha ideia, e que são sim ruins, que não vão passar, mas que tenho recursos pra lidar.

E essa é a parte mais importante: descobrir os recursos pra lidar. Mas, além disso, ser capaz de utilizar esses recursos sem se sentir julgado e envergonhado. Essa pra mim é a parte mais difícil, mas me fortaleço nas minhas amizades neurodivergentes pra afirmar minhas necessidades básicas. Teve um tempo que eu me obrigava a seguir em situações desconfortáveis porque pensava que eu não podia sair delas, que seria errado evitar. São sofrimentos que parecem pequenos, mas coisas como excesso de ruído, barulhos ritmados, luz branca, alguns cheiros específicos, muita informação visual, assuntos simultâneos em um espaço pequeno, enfim, mais tantos exemplos que posso encontrar e dissertar sobre, podem desencadear coisas horríveis. O problema é que, por parecer algo normal da vida, parece que tenho que lidar com isso, que tenho que aguentar isso como se não fosse algo que me faz mal. Mas isso é violência contra si mesmo, e por mim quero ter carinho. Pelo meu auto respeito, decidi seguir o que sinto independente do que penso que vão pensar.

Isso pode ser chamado de ansiedade, o pensamento que eu penso que alguém vai pensar se eu fizer determinada coisa de tal jeito. Mas como vou saber o que o outro vai pensar, se ele nem pensou ainda porque ainda não fiz, e se eu sou eu e o outro é o outro, ou seja, nunca posso saber exatamente a não ser que pergunte, e mesmo perguntando posso não saber caso a pessoa resolva mentir? Pois é. Considerando isso, não posso deixar de respeitar meu impulso de auto proteção pensando no outro que provavelmente não tá nem aí pra o que eu faço da minha vida, assim como eu também não tenho que estar nem aí pra o que ele pensar de mim.

É tudo muito difícil, são processos muito lentos mas sempre constantes. To descobrindo muitas coisas novas e é extremamente desafiante, mas muito bom. Me sinto muito incompreendido, mas isso não é novidade. Pelo menos sempre me aproximei mais intensamente de pessoas neurodivergentes, mesmo sem saber, porque assim é mais fácil conviver, ter afinidades, compreender e ser compreendido. Coisas simples podem ser muito complexas, mas já aprendi que não é porque um faz de determinada forma que a minha forma precisa ser igual. E, normalmente, minha forma não é igual.

To tentando amolecer toda a repressão que sofri na vida, mesmo que indiretamente, por não seguir roteiros de ação e pensamento socialmente aceitos. Mas é difícil descolar uma cola potente, abrir uma casca muito lignificada, rasgar algo grosso demais. Só que sei que existe algo muito fluido dentro dessa rigidez, que não é fixo nem cíclico, que tem padrões mas sempre é novo.

Assim sou Mar. 

domingo, 3 de março de 2024

Força de vontade.

Recentemente ando pensando que minha força de vontade é muito baixa porque não consigo pensar uma coisa e fazer, não consigo alcançar as metas de regularidade e de mudanças que me proponho. Nisso entra diminuir doces e estimulantes como a erva mate, fazer exercícios com alguma frequência, meditar, enfim. O primeiro ponto é que me proponho coisas demais, mais do que me é possível realizar, o que exigiria muito mais energia do que a que tenho, já que parto dizendo que minha força de vontade é fraca. Mas mesmo com menos coisas, não rola... ando pensando e experienciando sobre isso e descobrindo coisas interessantes.

Uma das coisas que me fez pensar foi a prática de jejum que comecei, irregularmente, a fazer. Parece que tudo que me proponho vira um compromisso, e, com isso, uma obrigação. Jejum é algo que me faz sentir bem, é uma prática pra trazer benefícios, mas acabou me trazendo ansiedade por acordar e sentir como que uma proibição em comer, e também uma dúvida em se hoje vou me manter sem alimento ou vou comer normalmente. Essa dúvida, como o nome diz, me deixa em confusão, e com confusão a ansiedade, e com a ansiedade a vontade de comer, mas sentindo que tenho um compromisso em evitar isso... e tudo vira uma prisão. Algo que era pra ser bom toma uma conotação negativa.

Quem tá me julgando, quem tá me culpando, quem tá me obrigando? A resposta é clara: ninguém. Então por que, mesmo assim, é tão difícil? Me coloco uma rigidez que não preciso, e percebo que tenho dificuldade não só em manter regularidades, mas, principalmente, em saber flexibilizar. Parece que o que me proponho toma um aspecto rígido, e, sendo rígido, passível da dualidade do certo e do errado. E, se dá errado, o óbvio é simplesmente deixar de fazer.

Uns anos atrás fiz um curso que, ao final, nos propunha uma prática por 21 dias seguidos. Tentei, mas já na primeira semana falhei um dia e, como diz aquela dos jovens, de aí pra frente só pra trás, ou seja, falhei um, muito mais fácil falhar outros do que retomar a regularidade proposta. Mas por que tem que ser assim? O que percebo que sempre senti, ou que usei como uma desculpa pra não me esforçar o suficiente e não exercitar minha força de vontade, é que já estraguei tudo, já fiz errado, então não adianta mais. Mas essa é a resposta mais fácil e a que menos parece ter sentido...

Esses dias comecei um tratamento que demandava 15 dias de regularidade, mas em dia sim, dia não. Mais fácil então, a prática já propõe assim de primeira que se falhe. Falhei alguns dias, deixando dois não, um sim em alguns momentos, mas não desisti. Percebi que o mais importante é o seguimento, mesmo que irregular, do que a desistência que te faz voltar pra onde tu tava antes de iniciar, ou seja, com o desejo de mudar algo. Vinha o pensamento de que ia dar errado, mas o julgamento e a culpa eram minhas pra mim mesma e, finalmente, consegui suavizar um pouco isso.

Um Exu falou comigo há poucos dias atrás. Falando de algo que ele me disse pra fazer todos os dias antes de dormir, acrescentou que se a nega não fizer todos os dia não tem problema, porque a nega pensa que é assim né? Não vai dar errado porque a nega não faz todos os dias porque não tem ninguém pra dizer se tá certo ou errado além da nega. E é, pois é... sou exatamente assim. Por que tanta rigidez? 

E isso tudo me traz pra como as pessoas são diferentes... Tem gente que precisa se enrijecer, porque é muito solto, então o exercício da regularidade estrita é muito eficiente e benéfico. Mas tem outras pessoas que precisam suavizar, porque são muito rígidas. Pra mim, o importante não é manter a rotina, mas sim aprender que a rotina pode não ser mantida e tá tudo bem, segue sendo uma rotina em potencial, e isso é importante. Sei que vou falhar, e não é exatamente porque minha força de vontade é fraca... Talvez é justamente por ser muito forte e dual. To aprendendo que mais importante é evitar a intensidade e trabalhar pelo que é leve e suave, e que a única pessoa que me julga, culpa e obriga sou eu, mas que não preciso fazer isso. Provavelmente vou seguir fazendo, afinal, são longos processos... Mas o processo é pra seguir o caminho, e não pra chegar no final. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

III de espadas.


    Se tem uma carta que não gosto em Rider Waite é essa. Tem desenhos tão bonitos todo o baralho, mas aí chega nessa e é um... coração atravessado de três espadas. Simbolismo tão óbvio, sem a metafórica das cartas, sem complexidade e, o pior, muito indutivo. Se tu tira cartas com Waite, olha pra carta e diz que algo te fere o coração e que, sendo espadas, tem que considerar mais o pensamento mesmo que doa. Mas, pra mim, um três de espadas pode dizer muito mais que isso.

    Pra mim ele pode falar da expansão do pensamento, de foco, direcionamento de energia, crescimento. O três vem depois do dois, que é uma reconciliação ou rompimento, carta da dualidade, e o três é a primeira possibilidade de figura geométrica, de materialização de algo que esse dois te trouxe. O que tu mentaliza cresce e se torna realidade.

    Faz uns dias que perdi uma coisa em uma praça e, enquanto procurava, encontrei uma carta voltada pra baixo. Sempre vejo como um sinal, como uma leitura pra mim, e encontro justo essa. Desisti de encontrar a coisa que perdi porque acabei encontrando o que precisava, e levei como um conselho pra minha semana justo na semana em que ia voltar a tirar uma carta a cada domingo. Encontrei ela no sábado, mas só parei pra pensar no significado no dia seguinte. 

    O que sinto sobre ela é que sinto: não tenho nenhuma dor agora, e o estigma de "carta da traição" não me assusta; acredito que o que ela me diz é pra que eu mesma não me traia. A espada tem uma ponta que aponta pra algo, e esse é o foco nas palavras que quero que se concretizem nesse triângulo que cresce.

    Gosto de pensar no significado dos arcanos menores como a junção do número com a pinta, e eu, que tiro com Marselha, não me apego às imagens de Waite e sempre me decepciono quando, depois de interpretar com meu baralho a leitura desse 3, busco na internet a imagem de Waite pra aprender um pouco mais. No geral gosto delas, mas essa, nem um pouco. Apenas ignoro e sigo minha interpretação, que, sendo minha leitura, é pra mim mais verdadeira. 

Sananga.

Minha experiência com a Sananga.

Já faz anos que sofro com uma alergia nos olhos, algo, disseram, por baixo das pálpebras que me faz ter os olhos sempre secos mesmo que não tenha nenhum problema de lubrificação. Já fui a muitos oftalmologistas, já usei todos os colírios possíveis, antialérgicos e coisas, e nada nunca me ajudou o suficiente.

Também há anos to inseridas em meios espirituais e entre pessoas que utilizam medicinas ditas alternativas, tradicionais, e com práticas energéticas e coisas do tipo. Assim ouvi falar da sananga, um colírio indígena amazônico, e desde então guardo a curiosidade de testar.

No sul do Brasil, é difícil encontrar essas coisas que vem da amazônia. Muito longe, e muito inseguro também conseguir esse tipo de coisa por internet quando tem tão pouca informação... colírio indígena, limpeza, abrir terceiro olho, limpar sujeiras espirituais, usado pra caça, melhora a visão e insira aqui a lista de todos os problemas nos olhos. Sempre que podia, perguntava pras pessoas dos centros espirituais se conheciam e tinham acesso, e nada. Assim passaram os anos.

Penso, agora, que foi bom ter encontrado essa medicina justo nesse momento da vida. Tem coisas que se precisa amadurecer em alguns aspectos, e eu tava viajando, morando na Bolívia por meio ano e viajando pelo Peru, descobrindo muitas coisas de mim e do mundo, mais aberta pra dores e mais preparada pra entrar em contato com coisas profundas. A sananga é forte como eu não fazia ideia.

Um dia, em Cusco no Peru, fui a Pisac, uma parte del Valle Sagrado de los Inkas. De uma série de coisas por lá, terminei junto a duas pessoas bem ligadas à ayahuasca e San Pedro e perguntei da sananga. Consegui um contato confiável no Mercado San Pedro em Cusco, mandei mensagem pro dono da tienda e fui lá no outro dia. Era uma mulher atendendo na loja de diversos artigos ritualísticos e diferentes medicinas. Perguntei do colírio, ela disse que tinha, pedi umas orientações e ela perguntou se eu queria provar. Claro, pues.

Estava com um amigo argentino. Os mercados que conheci pela Bolívia e Peru me foram desde sempre bem ansiogênicos, mas nesse dia eu tava tranquila apesar da muita gente, muita informação, muito barulho, tudo muito muito muito. Sentei num banco, botei a cabeça pra trás, eu tava insegura e com um pouco de medo da dor que sabia ser inevitável. Já tinha lido que dói quase insuportavelmente por alguns minutos, e, como meus olhos são bem sensíveis, sabia que ia ser duro. Mas melhor provar com alguém que sabe do que depois, sozinha em casa.

A dor de fato foi intensa. Apertava os olhos, ela dizia pra eu abrir e fechar mas era impossível, como um adormecimento, mas ao mesmo tempo como se meus olhos estivessem colados. Senti desespero, achei que não ia mais conseguir abrir porque parecia que não ia passar, a dor era intensa. O reflexo é direcionar a cabeça pra baixo, mas ela dizia pra eu seguir voltada pra cima pra que não saísse a medicina junto com as lágrimas, muitas lágrimas.

Meu rosto inteiro formigava, sentia muco no nariz, a cara toda molhada de lágrimas que eu nem sentia cair de tanto que me doíam os olhos. O argentino tava meio assustado, ele não fazia ideia do que ia acontecer quando recebi as gotas. Não sei quanto tempo durou, acho que não muito, mas parecia bem longo. Ela me dizia pra abrir e fechar os olhos, e eu fazia isso conforme podia. Aos poucos foi aliviando, continuei sentindo o formigamento, e, depois que já conseguia falar, passei a sentir outras coisas.

Fisicamente, os olhos e nariz mais limpos. Sede, também. E logo senti algo muito forte no peito, algo como... paz, felicidade, completude. Algo forte e bonito, luminoso. As cores estavam levemente intensificadas e eu tava também levemente tonta, também um pouco distraída. Lembro que saímos andando na rua e eu tinha que me esforçar pra prestar atenção no trânsito, mas ao mesmo tempo tava bem atenta observando as frutas e pessoas do mercado. Caminhava sorrindo. Sentia estranhamente feliz.

Mas também me senti aberta, vulnerável. Pelo menos já aprendi a me proteger das energias dos outros e podia fazer isso enquanto caminhava na rua, pra não deixar vir um monte de coisas desconhecidas. Depois fomos ao Templo de la Luna e enfim, seguimos o dia depois da minha primeira experiência.

Agora vem a continuidade. Me disseram pra usar dia sim dia não por 15 dias e depois dar uma semana de descanso. Assim, segui o tratamento.

A primeira vez pedi que um amigo pingasse em mim, como a prova no mercado foi muito intensa, não achei que podia fazer sozinha. Também apliquei nele. Nessa segunda vez não doeu menos que na primeira, mas durou menos tempo. Isso parece ser uma constante, cada vez dura menos tempo a dor, mas não diminui a intensidade. Meu rosto não formigou tanto e da mesma forma senti algo no peito, uma completude gostosa.

A seguinte vez pinguei sozinha. Em um dos olhos não entrou a gota, e isso foi bem complicado porque, quando um olho começou a arder, eu já era incapaz de pingar no outro. Passei o dedo na gota que não tinha entrado e enfiei no olho, talvez tenha pingado outra pra fazer isso, não lembro. Mas funcionou. Depois já aprendi melhor a medir onde fica o canto dos meus olhos. Também foi ruim estar com o conta gotas na mão, queria soltar mas não sabia onde, não era capaz de colocar no frasco e não queria botar em qualquer lugar pra não contaminar. Segui segurando, e decidi que na próxima traria um prato ou um copo pra perto. É uma boa ideia, mas já aconteceu de eu errar o prato e largar em cima da mesa acidentalmente mesmo. Acontece.

Percebi que eu sinto quando devo usar ou não. Fui visitar minha família e não senti de usar lá com gente em casa. Esperei todos saírem e mesmo assim estava hesitante, mas segui. Pareceu doer mais, e não senti essa felicidade no peito. Tem muitas memórias na casa que me criei, e não queria me abrir pra elas. Foi bem diferente das outras vezes por isso.

Além disso tudo, tem os efeitos da sensibilidade, do pensamento, do encontro consigo. Isso é super sutil e intenso ao mesmo tempo. Sinto meus pensamentos mais claros, sinto que acesso melhor meus desejos e entendo melhor as coisas quando paro pra pensar/sentir. E, algo que me surpreendeu, quando sento pra meditar e fecho os olhos, vejo claramente um círculo cambiante no centro da minha testa. Nunca tinha visto isso na minha vida e é impressionante que aconteça. "Olho" pra ele enquanto medito e é muito bom.

Percebi outras coisas também, mas a ver com algo que to tratando conjuntamente com outras terapias, auriculopuntura e florais, então já se mesclam os efeitos e não sei  dizer de onde vem cada coisa. Mas me encanta ver como em duas semanas de sananga e uma semana dessas duas outras terapias tanta coisa já mudou.

Amanhã é meu último dia dos 15 de tratamento. Na verdade sinto meus olhos mais secos que antes, mas acho que isso também faz parte do processo. Sei que a pausa também é uma etapa da melhora, e depois vou repetir os 15 dias. Outras coisas físicas que não comentei foi um certo inchaço nos olhos pela manhã mas que logo passa e um acúmulo gigante de remela, que deve ser expulsando o que tem que sair e o próprio resto da medicina. 

Nunca pensei que um colírio podia trazer coisas tão intensas e nada físicas como o que me trouxe nesses dias, mas nunca duvidei da medicina da floresta e por isso não me surpreende. Sei também que, pra quem vive na não dicotomia entre ser humano e natureza, o físico e o espiritual tampouco são diferentes, e isso é algo incrível de experienciar. Agora, conectada com essa força, sigo meus processos. 

domingo, 31 de dezembro de 2023

amor.

queria lhes fazer entender as diferentes possibilidades do amor.

ando pensando...

não posso aceitar que seja errado fazer o que se deseja. até que ponto ser tu mesmo pode ser prejudicial a outro?

lhes digo a verdade, mas não me querem creer.

e que faço se não acreditam na minha verdade?

não posso fazer nada se entendem meus sinais de maneira equivocada; assim sou, e não quer dizer que meu discurso perca o significado.

o amor perdeu o sentido de exclusividade pra mim; quando passei a amar meus amigos, a ver pessoas com as quais não tenho um relacionamento romântico como uma possibilidade de alguém pra amar, sem essa exigência, tudo mudou.

e, com isso, também posso sentir amor por alguém que me envolvo, sem a pressão de uma relação.

mas isso é difícil de entender aos outros... 

existem só duas opções de respostas pro meu jeito de agir: uma é pensar que to apaixonada e por isso tentam induzir a uma relação, e o outro é pensar que to apaixonada e por isso fugir de mim.

de fato to apaixonada; nesse momento do amor, tudo que tenho é sentimento e ofereço tudo que tenho

se não é pra ser completo,

se não é pra ser intenso,

prefiro que não passe nada.

e de fato amo com todo meu corpo, com todos os beijos e carinhos, com toda a profundidade das conversas e com tudo que posso oferecer de bom;

podem pensar que então não significa nada, mas penso justo o contrário

é justo por ser tão intenso e lindo,

justo por ser tão verdadeiro, sem julgamentos e sem intenções,

justo por isso é valioso e gera conexões importantes.

pensar em um amor livre não é sobre estar com muitas pessoas, nem sobre ser infiel, nem sobre não se importar com sentimentos e relações

pensar em um amor livre é justamente sobre saber amar sem centralizar o sentimento

e saber direcionar as emoções pro momento, aproveitando todas as possibilidades da conexão

sem excluir a possibilidade de que é possível se apaixonar de diversas maneiras

com cada amor diferente trazendo uma forma de relação

sempre única, sempre especial


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Ayuno.

Essa semana saí com um amigo que me perguntou se já fiz jejum, e começamos a falar sobre isso. Ele tá fazendo jejum com alguma regularidade, intermitente todos os dias e às vezes passar o dia todo sem comida, já chegou em um máximo de 60 horas. Me causou bastante curiosidade, por ser algo que nunca tinha ouvido falar assim por alguém próximo.

Ele me disse que se sente melhor, e passa a pensar coisas que antes não pensava. Passa a questionar os desejos, a pensar se quer mesmo algo ou se é só um costume ou um vício. Também passa a perceber melhor as coisas que fazem bem e as que fazem mal, e isso tudo não só em relação à comida.

Achei muito interessante toda essa mudança, lembrando também que o primeiro livro em espanhol que li foi Siddharta de Herman Hesse. Lembrando também que parei de comer carne pelo mesmo motivo que ele decidiu fazer seu primeiro jejum, ou seja, pra testar algo que leu em algum lugar e ver como afeta seu próprio corpo.

Falei pra ele do quanto teve uma época da minha vida em que eu estudava budismo, taoismo e comia só o necessário. Nessa época parei de comer doces, porque percebi que eu tinha um vício incontrolável de comer obrigatoriamente um chocolate depois de cada refeição, e que quando parei, percebi que era só um costume e não um desejo real, um vício do corpo que me condicionava.

Falei pra ele também do quanto eu, atualmente, tenho compulsão alimentar por causa de ansiedade e tristeza. Quando sinto isso, preciso comer algo ou muito doce ou muito salgado sem parar, e não é porque me faz bem, é só porque preciso fazer esse movimento de trazer algo à boca e mastigar, um movimento físico pra tentar esquecer o que tá me fazendo mal. E depois não me sinto bem, só sinto o corpo inchado e cheio, muito mais do que seria o suficiente.

Falei que, quando to ansiosa, bebo muita água. Quando to numa conversa desagradável, quando tenho que pensar coisas difíceis, tomo água compulsivamente, em um intervalo de poucos minutos preciso de muitos goles mesmo se não to com sede. E acabo com isso ficando com ainda mais sede, e ainda mais ansiosa.

Hoje passei toda a manhã sem comer e percebi algumas etapas. Primeiro vem a fome, e se tem que ignorar ela. Com isso vem uma certa fraqueza, uma certa preguiça, que também se tem que superar. Depois parei de sentir fome e senti meu corpo mais leve, justamente por não ter ingerido nada. Então me veio uma energia que me fez terminar os estudos que eu tinha pra fazer e realizar exercícios físicos, algo que nunca faço quando to com fome ou quando penso que em breve posso passar a estar com fome justamente porque imagino que vou ficar mal e sentir fraqueza. Não senti nada disso, só uma satisfação. E então fui almoçar, o que me foi meio difícil. Tinha fome, mas não vontade de comer. Não seria difícil passar mais algumas horas sem uma refeição.

Então lembrei de quando passei mal por intoxicação alimentar. Foi o momento que mais fiquei mal na minha vida, graças às bactérias estrangeiras. Passei uma semana inteira com diarreia, sem conseguir comer nada, e, sempre que tentava, era um esforço muito grande que não funcionava. Depois de alguns dias sem comer absolutamente nada, depois disso alguns dias comendo uma ou duas maçãs por dia, eu já tava bem o suficiente pra comer mas não queria. Não parecia que entrava comida, eu mal sentia fome. Não sentia nada, e podia seguir meus dias assim. Mas, nessa altura, eu não podia seguir sem comer porque tava extremamente fraca por causa da intoxicação.

Pensei como me acostumei nesses dias com a falta de comida, mesmo que não fosse por vontade própria e mesmo que, nesse contexto, me estivesse fazendo mal. Mas sinto que por vontade própria pode funcionar desse jeito também, assim como temos o costume de comer demais, podemos criar o costume de comer o suficiente, de comer pouco ou de não comer. 

A ansiedade que sinto já é crônica, vivo com isso há pelo menos 15 anos e melhora um pouco e depois piora, são sempre ciclos em que nunca passa, eu nunca não to sentindo isso. Sinto que posso ter encontrado uma ferramenta pra lidar com meu maior problema, e isso me deixa muito feliz. Sinto que isso pode ser uma maneira de encontrar espaços escondidos de mim, se limpar o corpo, sentir mais leveza e ter mais fluidez no pensar e sentir. Acredito no que esse amigo me disse, em relação a questionar suas ações e pensamentos e se aproximar mais de quem se é. Já sinto que morando em outro país me aproximo mais de quem eu sou e descubro muitas coisas novas e inesperadas de mim mesmo. Agora, além de todas as outras, tenho mais uma ferramenta pra testar. 

sábado, 2 de dezembro de 2023

Coisas que não gosto na Bolívia.

Os bolivianos sempre me perguntam se gosto de morar aqui e se tem algo que não gosto; sempre digo que gosto de tudo, mas, pensando um pouquinho melhor, não é completamente verdade. Algumas dessas coisas notei já à primeira vista, outras demoraram um pouco mais pra serem elaboradas e compreendidas, mas de qualquer forma continuo gostando muito daqui. Aqui vão algumas coisas que não gosto na Bolívia:

  • Lixo
Vejo muito aqui que não se preocupam muito com o lixo. A primeira impressão é que nada se separa, colocam secos com orgânicos, recicláveis com não recicláveis, mesmo onde tem lixeiras pra separar. Mas o principal é do lixo jogado pelos lugares, tem ruas bem sujas, tem lugares que tudo fica no chão pra ser recolhido, em viagens nas beiras de estradas se vê muito espalhado no meio da vegetação. 
Mesmo nas minhas viagens a campo com a graduação pra lugares mais afastados, que a princípio são mais naturais. encontro lixo jogado no meio dos bosques e pastos. Também como se usa muuito plástico, me parece que a produção de resíduos é maior e não me parece que o planejamento pra lidar com isso é bom o suficiente, ao menos nos lugares que visitei pelo departamento de Cochabamba.
  • Trânsito
Essa foi minha primeira impressão de Cochabamba: o quão caótico é o trânsito. Em um minuto na rua já é possível notar como os carros se ultrapassam, buzinam todo o tempo, vão super rápido, não fazem sinal quando vão dobrar, não esperam os pedestres cruzarem a rua e buzinam pra que tu vá mais rápido, param em qualquer lugar, enfim, muitas coisas. Conversando com bolivianos descobri que não é obrigatório fazer aulas de autoescola. Pelo jeito agora tem aulas teóricas obrigatórias mas até algum tempo atrás não existia, e as classes de direção são optativas, se a pessoa já sabe dirigir pode simplesmente fazer a prova. Me disseram também da corrupção, tem gente que não passa no exame, paga e é aprovado. Isso me explicou muita coisa.
Se pode comprovar isso pelo visual dos carros que circulam nas ruas. Com muita frequência são batidos, amassados, com faróis queimados, vidros rachados. Já peguei taxis que não abriam uma das portas, que tinham o banco traseiro torto por estar quebrado, sem cinto de segurança (na verdade muitos não tem, quase ninguém usa), entre outras coisas. Virou até uma piada minha esses taxis, porque no vidro dianteiro sempre tem um adesivo escrito "taxi seguro" mas olhando pro estado do carro é impossível imaginar que seja realmente seguro.
O transporte público também é bem caótico. Não existem ônibus, são vans ou micro ônibus chamados trufis e também os taxi-trufi, que são carros com mais bancos em lugar de porta malas que funcionam como transporte público. Tem muitas linhas e se pode tomar em qualquer lugar fazendo um sinal, assim como também pode parar em qualquer lugar pedindo pro motorista. Isso é bem caótico porque a qualquer momento pode parar um trufi e gerar uma série de buzinaços e pessoas caminhando no meio da rua pra entrar e sair da van, porque a maioria não costuma estacionar mas simplesmente parar ali mesmo onde está. O pagamento na maioria deles se faz ao descer, já na rua e dando o dinheiro pro motorista pela janela. 
Outra coisa é que a cada dia vejo uma nova coisa que seria infração de trânsito no Brasil. Primeiro o que já comentei dos faróis queimados, carros danificados, falta de sinalização e não usar cinto de segurança. Também tem excesso de gente em um automóvel, como 2 pessoas no banco da frente, 4 pessoas no banco de trás, gente andando no porta malas, gente em caçambas, mais de duas pessoas em motos (já vi 3 adultos, 2 adultos e 3 crianças, 2 adultos e 2 cachorros...) e coisas assim. Faróis coloridos e piscantes, animais soltos nos carros, placas apagadas ou falta de placas, desobediência das sinalizações e não andar na sua faixa são mais algumas.
No começo eu tinha bastante medo de me passar algo a qualquer momento; agora já aprendi algumas coisas, como nunca confiar na falta ou presença de sinais de luz nas esquinas, olhar pra todos os lados, não atravessar uma rua faltando pouco tempo do semáforo e, principalmente, aprendi a correr, porque a maioria dos carros simplesmente não para e ainda por cima te buzina. Aprendi a, também, nunca falar nada do trânsito brasileiro.
  • Clima seco
Pra mim que vivo no sul do Brasil essa foi difícil de acostumar. Vim morar justamente na região dos vales secos interandinos, na região de puna mesofítica, onde é seco de 4 a 6 meses por ano e mesmo quando chove, continua sendo seco. No primeiro mês, meu nariz doía ao respirar e sangrava todos os dias. Minha pele, que já é seca, secou tanto que meus dedos racharam e começaram a sangrar, e meu rosto ardia e descascava até eu comprar um creme pra pele super seca e começar a usar todos os dias. Uns exemplos de quão seco é aqui são a velocidade que secam as roupas quando se penduram no varal e o fato de que eu nunca vi um alimento mofar. Nos dias que escolho mal quando lavar roupa e chove enquanto estão estendidas, no dia seguinte de manhã já estão secas como se não tivesse chovido. Sobre os alimentos, um amigo tinha um dente de alho há uns seis meses em casa e ele simplesmente secou, enquanto onde eu vivo em um mês ele estaria cheio de fungos. Agora meu nariz já se acostumou e já aprendi a usar creme pra não ficar com a pele rachando e doendo, mas no começo foi difícil e ainda sinto falta de um pouco de umidade no ar.  
  • Machismo
Essa é mais sutil e demorei pra perceber. Um dia um amigo que conhece o Brasil e já viajou pra outros países me perguntou que tal o machismo aqui e eu na hora não soube responder, mas depois disso comecei a pensar e percebi como é bem maior do que eu to acostumada a viver. Percebi que no geral as pessoas tem pensamentos bem mais conservadores e não entendem coisas que pra mim e pras pessoas que eu costumo conviver são muito óbvias. Alguns exemplos: uma vez uma vendedora perguntou onde estava meu esposo, falei que não tenho, ela perguntou por que e disse que se eu não tenho alguém no Brasil me esperando podia casar com um boliviano e ter filhos, que ela podia fazer meu casamento e a outra senhorinha poderia cozinhar; na hora foi engraçado e até bem gentil ela se oferecer pra me casar, mas nisso se nota como tem bem forte o pensamento de que uma mulher tem que se juntar com um homem e construir uma família, e que eu com minha idade já devia ter feito isso. Mesmo entre jovens percebi a predominância do pensamento da família, do casal monogâmico hétero, da fidelidade, do papel do homem e da mulher.
Teria vários exemplos, mas vou exponer mais dois. Um dia peguei uma carona com o irmão de um cara que eu tava saindo, estávamos nós três no carro e ele perguntou de onde sou sem se dirigir a mim. Meu companheiro respondeu que do Brasil, o irmão dele disse que eu não tinha mesmo acento boliviano na fala, e então seguiram conversando. Esse comportamento me soa muito com a ideia da mulher como posse do homem e que, por respeito masculino, um homem não pode se dirigir à mulher do próximo, agindo com ela como "a namorada do amigo". Me senti bem desconfortável porque ele em nenhum momento se dirigiu a mim pra saber coisas da minha vida, e depois quando falei pro meu companheiro que isso era uma marca sutil de machismo ele me disse que é porque o irmão é tímido e se constrangeu de falar comigo. Claramente é mais profundo que isso.
O outro não é exatamente um exemplo, mas percebi que aqui, nas situações que vivi e presenciei, os homens não sabem respeitar um não. Isso é bem sério. Pensam que com um pouco de insistência pode virar um sim e não entendem a seriedade das situações. Um dia tive que apelar pra legislação brasileira falando pra um cara "sabia que se a gente tivesse no Brasil eu poderia te denunciar por abuso?" pra ele parar de insistir em ficar comigo. A princípio ele riu e não levou a sério, falou que se tu é um casal com uma pessoa insistir pra passar algo não é abuso, e eu disse que sim é, que se alguém quer algo e o outro não é o não que tem que ser respeitado, sem questionamentos e sem insistência, e que desrespeitar isso de qualquer maneira é sim considerado abuso. Falando e vendo outras situações isso parece ser um pensamento geral, mesmo entre mulheres que acabam levando na brincadeira ações desse tipo. 
Claro que tudo isso também existe no Brasil, que segue sendo uma cultura bem machista, mas mesmo assim sinto que aqui é mais intenso, mesmo entre jovens do mesmo círculo social que eu.
  • O medo que nos induzem
Boto fé que Cochabamba pode ser perigoso, assim como tantas cidades, mas não gosto do tanto de medo que os bolivianos dizem que temos que ter. Dizem que tem alguns lugares que não devo ir, que tenho sempre que levar a mochila na frente, que não é pra pegar o celular na rua, que é só pra andar onde tem movimento, que não é pra ficar nas praças. Claro que é de se considerar, afinal os nativos conhecem melhor que ninguém os perigos da sua cidade, mas me incomoda como por exemplo um dia fui na cancha (o mercado público), quando cheguei em casa a abuelita que mora comigo perguntou onde fui, respondi e ela de imediato se colocou assustada e perguntou "e não te assaltaram?? Não vai lá, é muito perigoso". Bom, eu já fui lá, não duvido que seja perigoso, mas não vou deixar de ir em um lugar onde tenho que ir, e é muito ruim que induzam tanto medo de coisas que tem que ser normais como frequentar a cidade. De fato não vou ficar rateando, mas sou brasileira, também vivo em um lugar perigoso e sei me cuidar. É bom receber esse tipo de conselho sobre a cidade pra melhor saber por onde tem que tomar mais cuidado e receber umas dicas de como se portar pra estar em segurança, e entendo a preocupação e cuidado que querem ter comigo por ser estrangeira, mas é extremamente ruim e limitante ser condicionado a ter medo de um lugar a ponto de se impedir de fazer coisas pensando no que talvez poderia acontecer. 

Isso é o principal, não consigo pensar em outras coisas e também não são fatores que me tirem o quanto me encantam as terras bolivianas; apesar de serem coisas que não gosto, não diminuem o sentimento de tudo o que é bom que tem por aqui. A Bolívia é um país lindo, cheio de cultura e gente querida, onde tem muito pra ser vivido e aproveitado. Tem seus problemas como em qualquer outro lugar do mundo, o que faz parte da sua complexidade cultural e todo o histórico de desenvolvimento, fazendo com que aqui seja um lugar único com muito a ser descoberto. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Rumos.

Nunca soube que sempre quis chegar exatamente onde estou, e aqui estou. Quando era criança, íamos em família para a praia fazendo um caminho mais longo pra passar por um lugar bonito que é o planalto meridional, chamado serra, onde tem a mata de araucária e os campos de cima da serra. Passando por ali, tudo que eu queria era parar na beira da estrada, pular uma cerca, sentar no meio do campo nativo e ficar ali todo o dia. Ficava muito frustrada quando meu pai dizia que não podíamos parar, ou, se parávamos, era só o tempo de fumar um cigarro e seguir viagem. 

E agora, sem pensar exatamente em onde meus rumos iam me levar, me deparo com onde cheguei: quase bióloga, que trabalha em campo, conhece quase todo o Rio Grande do Sul e tantos de seus lugares inacreditáveis, em contato com comunidades guarani, restauradora e que posso, no meu trabalho e fora dele, fazer o que era meu sonho na infância: contemplar. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Só conhecendo outra cultura pra valorizar a própria.

    Tem uma coisa muito valiosa pra mim que to aprendendo enquanto vivo aqui na Bolívia, e isso é valorizar a minha própria cultura brasileira. 

    Quando decidi viajar pro lugar mais distante e diferente que poderia, o que queria era justamente conhecer algo diverso do que vivi toda minha vida. Foi um pouco irônico eu entrar nesse processo justamente no momento que tava me dedicando pra conhecer a cultura gaúcha, que por toda minha vida tinha desprezado de alguma forma. Como nunca tive vivências culturais em família e era uma criança bem julgadora, achava que tudo parecia meio besteira e indigno de atenção. Assim cresci como alguém afastado da cultura local, pela minha índole e pelo distanciamento que minha própria família tem disso. 

    Outra ironia foi que comecei a me interessar por entender as coisas do sul quando me envolvi com um grupo de resgate cultural afrouruguaio. Começando a tocar candombe, entrei em contato com pessoas bem ligadas à cultura gaúcha que escutam música, tomam mate, vão a CTG, conhecem a história. Antes disso, na graduação, pela questão da paisagem e da vegetação, pude entender um pouco do sentimento do gaúcho com a pampa e isso me deu interesse em me aproximar disso tudo. 

    E nesse contexto me mudei pra Bolívia, no momento não conhecendo quase nada do que é meu do sul. Quis fazer essa viagem pra entender um pouco da minha identidade latinoamericana como brasileira, porque infelizmente isso com frequência parece muito distanciado. Aqui, me identifico com muitas coisas e outras me são muito diversas. Mas o mais lindo é o quanto essa vivência tá me fazendo conectar, ou pelo menos criar um maior interesse, em conhecer as tradições de onde vim.

    Os bolivianos, de maneira geral, amam muito a Bolívia e são muito orgulhosos do seu país e cultura. Logo que cheguei, nos meus primeiros dias fui a uma grande festa religiosa e conheci muitas das danças tradicionais. No momento foi algo mais só dessas pessoas que estavam dançando, que já me encantou muito, mas depois descobri que não só as pessoas que estavam se apresentando dançam, mas em geral todos sabem todas as danças e gostam disso. Se ensina a bailar nas escolas, e, de todas as pessoas que conheci, mesmo as que hoje adultas não gostam de dançar veem o fato de já terem dançado como algo bonito. Nas festas que fui (nas boas, por supuesto), sempre chega uma hora da noite, normalmente mais pro fim, em que começa a tocar as músicas tradicionais de vários estilos. É a parte mais divertida da festa, quando todos parecem dançar com muito mais energia do que estavam nos reggaeton e cumbia. 

Em uma dessas entradas folclóricas vi um grupo dançando chacarera, algo que achei inacreditável porque não sabia que isso chegava até a Bolívia. Com isso me senti incomodada por ser do Rio Grande do Sul e simplesmente não saber, até estar aqui e ver pela primeira vez, como se dança uma chacarera. Me perguntaram quais são as danças típicas de onde vim, e eu simplesmente não sei porque nunca tive nenhum contato. 

    Sempre que me perguntam de onde sou, perguntam também o que to achando da Bolívia e se já conheci as tradições. Querem saber se já fui a pueblitos, se já bebi chicha e guarapo, se já comi os pratos típicos, o que eu mais to gostando de estar aqui. Parecem muito dispostos a me apresentar tudo. E querem saber coisas da minha cultura também, e nesses momentos me sinto meio envergonhada de não saber diversas coisas. 

    Em relação às comidas, me perguntam também o que é típico do Brasil e fico com dificuldade de responder. O Brasil é imenso e não posso falar de outros lugares que não sejam o sul, mas também não sabia o que responder sobre isso. O clássico é o arroz com feijão, depois me lembrei da a la minuta, e mais gaudério tem o churrasco e o carreteiro. Percebi como sempre vi isso tudo como completamente normal e corriqueiro, mas que na verdade são tradições importantes brasileiras. Nunca pensei na a la minuta como um prato típico até que comecei a viajar e ver outras coisas, como por exemplo o silpancho e o piquemacho. 

    Um momento lindo que me fez sentir muita vontade de conhecer melhor as tradições foi no día de todos santos, quando montam altares aos mortos que vão vir visitar os vivos por um dia. É um costume lindo. Me perguntaram também o que fazem no Brasil, ao que respondi que só vão ao cemitério limpar os túmulos e trocar as flores pra mais um ano. É uma tradição simples, que em geral minha família leva com um certo tédio e algo de obrigação, e por isso também sempre desprezei isso, assim como sempre desprezei as coisas católicas. Mas ver essas práticas andinas me fez ver as coisas de outra forma, ver como é bonito qualquer tipo de tradição, por mais simples e aparentemente sem significado que seja. 

Tradições não precisam ser elaboradas e complexas, na verdade na maioria das vezes são as coisas mais simples, e isso foi um grande aprendizado. 

    Nunca tinha rezado na minha vida, nem quando estudava em um colégio católico, porque eu não gostava. Nesse dia, não só rezei como rezei em espanhol na casa de muitos desconhecidos pra que a alma dos seus mortos fosse bem. Na infância não fazia o sinal da cruz e me negava a rezar, diziam que eu era desrespeitosa e eu não concordava porque simplesmente tava agindo de acordo com as minhas crenças. Agora igual não tenho essas mesmas crenças, mas não participei dos ritos com uma intenção de brincadeira ou por algum tipo de interesse, mas sim porque valorizo essas ações da cultura e me sinto feliz em poder compartilhar.

    Já não vejo as coisas como verdades ou mentiras, mas sim como partes igualmente válidas de práticas culturais igualmente lindas e significativas. Era uma energia muito forte nesse dia, e me deu vontade de fazer parte dessa tradição nesse momento mesmo que não seja da minha crença. Enquanto participava, foi uma realidade e senti isso de forma verdadeira. E com isso aumentou minha vontade de conhecer da cultura que sempre desprezei na minha terra, e também de todas as coisas lindas e intensas que existem, principalmente, pela América. 

    Não pensava que conhecer tradições tão diferentes e distantes poderia me fazer sentir mais conectada com as raízes de onde vim e com vontade de vivenciar essas raízes. Esse é um aprendizado muito bonito e importante que vou levar dessa grande experiência de viver nos Andes. Mas, por outro lado, não acho que seja verdadeiro dizer que é assim tão diferente e distante... A América Latina tem, sim, uma unidade cultural, por mais diversa que seja, e seja qual for essa unidade, afinal não descobri ainda o que é, me faz sentir parte desse continente do sudoeste do mundo.

domingo, 29 de outubro de 2023

Mi corazón confundido
no te puede alcanzar
ni tampoco alcanzarse a sí mismo.
En este laberinto de emociones
se siente solo
se siente lleno
se siente tanto
que a nada puede comprender
mientras el tuyo,
pareciéndose tan seguro,
sabe lo que quiere
y el camino que debe seguir.
El mío, perdido,
sin fuertes convicciones,
sigue adelante y pronto regresa
o largo regresa y pasa a correr.
Él no sabe cuánto se cansa
en seguir tantos caminos vanos
pero es débil en sentir
así como es débil en pensar
y así, mi corazón confundido
siempre suele sufrir.

Cariño.

Quero escrever todas as lembranças que tenho de ti antes de que te olvide, cariño.

Teu rosto fofo e macio com os olhinhos fechados e tua boca delgadita sutilmente sonriendo são uma coisa linda de se ver. Não sei explicar teus traços, a textura da tua pele, pero me ha encantado mais do que poderia imaginar.

Achei que não estaria me apaixonando até que chegou o momento de chorar com o rompimento. 

Me resta teu ombro macio me servindo de almohada na tua cama dura e curta, em que tu não deixaria os fantasmas pegarem nos meus pés enquanto dormíamos.

Queria poder falar mais do teu rosto além da imagem que tenho, que é uma imagem mais sensitiva do que visual. Quisiera yo tener también un imagen real, sacada con una cámara. Assim parece que tenho os olhos fechados enquanto te vejo y te extraño, sin poderte sentir. 

Toquei nos teus pés pela primeira vez talvez uma hora antes de nos despedirmos. Tinha pensado que na próxima vez que nos víssemos, te podría hacer un masaje. Mas me despajaste como sempre faz, com essa palavra que sempre me pareceu tão feia pra algo tão amoroso quanto me abraçar e beijar na frente do meu prédio, e hoje foi diferente. Porque foi feio, e mais sério.

Cuando me ofreciste la sandía pensei que era de fato a fruta, e rimos bastante. Rimos também de tantas coisas no teu sofá, e me senti tranquila como não me sentia há tempos. 

Como conciliar entre sentirme libre, pero sola y ansiosa, con sentirme enganchada y presa, pero tranquila y feliz? 

Así me hiciste sentir, mi amor. A coisa mais linda é poder acariciar un pelo mojado mientras nos abraçamos conversando sobre algo. Okei me dijiste tantas vezes de uma maneira tão linda.

E sempre me vem teus ojitos cerrados y tua boca fininha, que me deu beijos tão gostosos. Tuas mejillas grandes y blanditas, tão irresistíveis de tocar. Assim como tua nuca, tuas mãos, teus ombros, teus joelhos. Sem esquecer los tantos gatitos nos momentos exatos.

A primeira vez que falamos sobre o que quero e sinto, me dijiste que tienes duro el corazón. No te lo pude creer, por que me pareces a mi tan blandito. Comprendo pero no estoy de acuerdo; entiendo, te respondi, e isso é bem difícil.

Como três semanas podem ser assim tan fuertes? Tuvimos sueños intensos con nosotros, nos atingimos em algum lugar profundo tão rápido.

No creo que te vaya olvidar. Que no me olvides tampoco. 

sábado, 21 de outubro de 2023

Fragmentos.

Sinto os fragmentos que me torno assim:
Um pedaço pra cada lado
tentando encontrar algum centro
que cada vez só se diminui
no que pensa que é
e encontra o que é realmente.
com cada fragmento se busca segurança
mas com todos separados
não se encontra nada.
o centro é seguro quando está completo,
quando junta os pedaços
e não deixa que corram a todos os lados
em busca de um conforto passageiro.
há demasiadas coisas contraditórias
que não se deixam conciliar...
com tantas palavras dispersas
por linhas a todos os lados
uma rede se construindo
com um fio por demais sensível
se quebra antes de iniciar sua construção
deixando tudo como poeira
que não se pode limpar.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

tem uma coisa vermelha, preta
que se esconde em algum fundo
em algum tapete
em algum baú
embaixo de alguma terra
de um lençol, de um colchão.
tem uma coisa branca, amarela
dentro dessa outra coisa
mais escondida, mais dentro
dentro do dentro do mais fundo
escuro e longínquo
espaço onde tem algo perdido.
uma escada estreita e escura
de ferro, enferrujada
leva a algum lugar
mas não encontro escada
e não encontro energia
apenas uma vontade
que não sai de um pensamento.
são coisas de carne
são coisas vivas e físicas
que não se conseguem mover
são coisas intensas e fortes
que não se podem remover
que não se conseguem abrir
que não podem emergir
porque é fundo e escondido
e por mais que tente
(em verdade não tento)
por mais que fale
(em verdade não busco)
nem o tapete
nem o baú
nem a terra
nem o lençol, nem o colchão
nem a poeira, nem a escada
e muito menos a luz, que sei que há dentro
estarão mais perto.
está tão longe
que os pés não ingressam na busca