Mi corazón confundido
no te puede alcanzar
ni tampoco alcanzarse a sí mismo.
En este laberinto de emociones
se siente solo
se siente lleno
se siente tanto
que a nada puede comprender
mientras el tuyo,
pareciéndose tan seguro,
sabe lo que quiere
y el camino que debe seguir.
El mío, perdido,
sin fuertes convicciones,
sigue adelante y pronto regresa
o largo regresa y pasa a correr.
Él no sabe cuánto se cansa
en seguir tantos caminos vanos
pero es débil en sentir
así como es débil en pensar
y así, mi corazón confundido
siempre suele sufrir.
domingo, 29 de outubro de 2023
Cariño.
Quero escrever todas as lembranças que tenho de ti antes de que te olvide, cariño.
Teu rosto fofo e macio com os olhinhos fechados e tua boca delgadita sutilmente sonriendo são uma coisa linda de se ver. Não sei explicar teus traços, a textura da tua pele, pero me ha encantado mais do que poderia imaginar.
Achei que não estaria me apaixonando até que chegou o momento de chorar com o rompimento.
Me resta teu ombro macio me servindo de almohada na tua cama dura e curta, em que tu não deixaria os fantasmas pegarem nos meus pés enquanto dormíamos.
Queria poder falar mais do teu rosto além da imagem que tenho, que é uma imagem mais sensitiva do que visual. Quisiera yo tener también un imagen real, sacada con una cámara. Assim parece que tenho os olhos fechados enquanto te vejo y te extraño, sin poderte sentir.
Toquei nos teus pés pela primeira vez talvez uma hora antes de nos despedirmos. Tinha pensado que na próxima vez que nos víssemos, te podría hacer un masaje. Mas me despajaste como sempre faz, com essa palavra que sempre me pareceu tão feia pra algo tão amoroso quanto me abraçar e beijar na frente do meu prédio, e hoje foi diferente. Porque foi feio, e mais sério.
Cuando me ofreciste la sandía pensei que era de fato a fruta, e rimos bastante. Rimos também de tantas coisas no teu sofá, e me senti tranquila como não me sentia há tempos.
Como conciliar entre sentirme libre, pero sola y ansiosa, con sentirme enganchada y presa, pero tranquila y feliz?
Así me hiciste sentir, mi amor. A coisa mais linda é poder acariciar un pelo mojado mientras nos abraçamos conversando sobre algo. Okei me dijiste tantas vezes de uma maneira tão linda.
E sempre me vem teus ojitos cerrados y tua boca fininha, que me deu beijos tão gostosos. Tuas mejillas grandes y blanditas, tão irresistíveis de tocar. Assim como tua nuca, tuas mãos, teus ombros, teus joelhos. Sem esquecer los tantos gatitos nos momentos exatos.
A primeira vez que falamos sobre o que quero e sinto, me dijiste que tienes duro el corazón. No te lo pude creer, por que me pareces a mi tan blandito. Comprendo pero no estoy de acuerdo; entiendo, te respondi, e isso é bem difícil.
Como três semanas podem ser assim tan fuertes? Tuvimos sueños intensos con nosotros, nos atingimos em algum lugar profundo tão rápido.
No creo que te vaya olvidar. Que no me olvides tampoco.
sábado, 21 de outubro de 2023
Fragmentos.
Sinto os fragmentos que me torno assim:
Um pedaço pra cada lado
tentando encontrar algum centro
que cada vez só se diminui
no que pensa que é
e encontra o que é realmente.
com cada fragmento se busca segurança
mas com todos separados
não se encontra nada.
o centro é seguro quando está completo,
quando junta os pedaços
e não deixa que corram a todos os lados
em busca de um conforto passageiro.
há demasiadas coisas contraditórias
que não se deixam conciliar...
com tantas palavras dispersas
por linhas a todos os lados
uma rede se construindo
com um fio por demais sensível
se quebra antes de iniciar sua construção
deixando tudo como poeira
que não se pode limpar.
terça-feira, 10 de outubro de 2023
tem uma coisa vermelha, preta
que se esconde em algum fundo
em algum tapete
em algum baú
embaixo de alguma terra
de um lençol, de um colchão.
tem uma coisa branca, amarela
dentro dessa outra coisa
mais escondida, mais dentro
dentro do dentro do mais fundo
escuro e longínquo
espaço onde tem algo perdido.
uma escada estreita e escura
de ferro, enferrujada
leva a algum lugar
mas não encontro escada
e não encontro energia
apenas uma vontade
que não sai de um pensamento.
são coisas de carne
são coisas vivas e físicas
que não se conseguem mover
são coisas intensas e fortes
que não se podem remover
que não se conseguem abrir
que não podem emergir
porque é fundo e escondido
e por mais que tente
(em verdade não tento)
por mais que fale
(em verdade não busco)
nem o tapete
nem o baú
nem a terra
nem o lençol, nem o colchão
nem a poeira, nem a escada
e muito menos a luz, que sei que há dentro
estarão mais perto.
está tão longe
que os pés não ingressam na busca
sábado, 30 de setembro de 2023
Distração.
Tem dias que não consigo entender o que os outros falam. Faz pouco tempo que percebi isso, mas acho que sempre me aconteceu. Talvez se intensifique um pouco por causa do idioma, e to aprendendo a aceitar esse tipo de coisa. Teve um tempo que eu ficava incomodada por não entender algo, não gostava de perguntar a mesma coisa várias vezes, pensava que tava incomodando. Era um problema que eu queria reverter. Sinto que agora to cada vez me entendendo mais, percebendo meus padrões de comportamento e os motivos de algumas coisas acontecerem às vezes. Sinto que paro de entender o que os outros dizem quando me sinto ansiosa, quando passa algo complicado, quando to num momento introspectivo seja lá qual seja o motivo. To entendendo que isso é normal, que mudamos não só em grandes períodos de tempo as grandes mudanças, mas também pequenas mudanças que ocorrem durante os dias. Os sentimentos são sutis, e tem que ter atenção pra notar. Também se tem que estar aberto pra sentir e aceitar essas diferenças, que são passageiras e todas parte do que sou.
Prefiro sempre ter atenção nas pessoas e entender o que tentam me comunicar, mas tem vezes que não dá. Tem vezes que tá tão difícil as próprias coisas, que já tem pouca atenção pra mim mesmo, confusões e o que mais possa estar acontecendo, ou mesmo sem motivo algum aparentemente, que é necessário aceitar e desligar um pouco o externo. Acho que de qualquer forma é um pouco incômodo pros outros, mas o mais importante é que é incômodo pra mim ter que gastar uma energia que não tenho pra algo que não é meu. O corpo grita pra ser ouvido, no seu silêncio de sensações. Agora consigo ver esse tipo de coisa como um sinal, como algo que tenho que observar em mim mesmo e tentar descobrir o motivo do cansaço, da desatenção, da incapacidade. Mas, mais que descobrir o motivo, o importante é respeitar esses sinais e não exercer esse tipo de violência sutil sobre si mesmo de ignorar o que acontece pra não ser julgado de algo pelos outros. No fim, ninguém sabe o que se passa dentro de cada um, e por isso o respeito mais importante é o por si mesmo.
sexta-feira, 22 de setembro de 2023
Cochabamba.
Pela janela aberta.
A pomba
sexta-feira, 8 de setembro de 2023
Santa Cruz de la Sierra.
Minhas primeiras impressões na Bolívia começaram no avião, chegando de São Paulo a Santa Cruz de la Sierra. Eu, que não tinha pesquisado muito antes de partir, imaginava que ia chegar e ver montanhas, Bolívia já era sinônimo dos Andes, mesmo sabendo do grande espaço do território que não é montanhoso. Olhava pelas janelas procurando elevações e não via nada, e me estranhava que cada vez via menos; via algumas plantações, llanuras sin fin, e aos poucos foram cada vez mais sumindo no meio de uma poeira amarronzada. Enquanto pousava, me estranhava ver tantas palmeiras. Como pode ter tanta palmeira em um país completamente continental? Foi meu contato com a tropicalidade da Bolívia, não tem praia, mas tem palmeiras. Muy raro. Não entendia nada.
Já via o vento das janelas do avião enquanto pousava. Via mesmo, porque parecia muito poeirento, e parecia também muito forte porque as folhas das palmeiras eram claramente voltadas pra um lado e se balançavam. Saí do aeroporto e comprovei: muito vento, muita poeira. Sentia os grãos entrando no meu nariz, sentia muito calor porque meus casacos não cabiam na mala e eu precisava usar todos, era golpeada pelo vento como as copas das palmeiras já tão inclinadas pelos anos de ventania. Não esperava tanto calor, nem tanto vento. Nem as palmeiras, fiquei perplexa em ver tantas, e não qualquer palmeira, mas coco. Coco mesmo, ficava olhando e questionando se era isso realmente porque na minha cabeça de botânico em formação não fazia sentido ter esses cocos ali. Pensava neles como muito característicos do litoral brasileiro, mas, pensando agora, óbvio que não.
E fui numa llanura em meio ao sol do meio dia, tão mais claro e forte do que o que eu estava acostumada, pegar uma van pro centro da cidade. Me sinto tão segura sozinha sem saber exatamente pra onde tô indo. Tava morrendo de fome e não sabia o nome de nenhuma comida, recém chegada em terras hispanohablantes. Esperava uma cidade maior, com prédios, construções e vi algo muito mais sencillo, me espantei com a quantidade de gente vendendo coisas na rua, mas me senti muito bem apesar do peso das mochilas, da fome, do calor. Apontei pra um bolo, não queria perguntar nada além de onde pegar o ônibus pra onde eu tava indo. Não sabiam me responder, mas consegui encontrar sozinha. Gosto de ir yendo, sem perguntar, sem confirmar, mas com a segurança do mapa em mãos. Nada pode dar tão errado.
No outro dia, me levaram de moto pra conhecer o Jardim Botânico. Nos perdemos um pouco e caminhamos um montão. Adorei ver as plantas frutíferas parecidas com as que eu já conheço, reconhecer gêneros e famílias, ver elas ali ocorrendo tão iguais e tão diferentes em um local tão longe. Andamos em umas partes que estava escrito pra não ir porque podíamos nos perder, mas meu acompanhante disse que já tinha ido e não parecia nada propício a não se encontrar outra vez. Devemos ter andado por umas duas horas, sem água e no calor queimando minha pele. Mas foi lindo ver o quanto a vegetação muda em trechos tão curtos, claramente notável a diferença dos bosques mais secos, queimados de sol, baixos, retorcidos, pros mais úmidos, com árvores grandes, mais verdes, altas. Me encanta perceber que aqui tem tal planta e logo ali não tem mais, e perceber as sutilezas não tão sutis das diferenças de solo, água, incidência solar na estrutura dos bosques. A semelhança é que todas estavam igualmente marrons de poeira.
No outro dia, a viagem foi linda. De ônibus de Santa Cruz hacia Cochabamba. Foi uma tortura os cinco filmes seguidos sobre animais que fui obrigada a assistir em volume mais alto que o necessário, me atacando a ansiedade, mas a vista da janela foi maravilhosa. Pude ver a mudança de vegetação com a altitude, começando pelo chaco seco de Santa Cruz com palmeiras e gramas, passando por um bosque baixo, depois uma neblina e a vegetação de yungas (creio) verde e grande como uma floresta pluvial, inclusive com plantas conhecidas como as mais marcantes jussaras e embaúbas. Depois tudo começou a secar, depois de subir um pouco as montanhas, e eu via paredões com gramas secas, bromélias e cactos até escurecer e não mais poder ver nada quando já estava entrando nas urbanizações.
Assim cheguei a Cochabamba, depois de 12 horas encantadoras de observação de paisagens maravilhosas pelos gradientes vegetacionais desconhecidos da Bolívia. Pensava não querer voltar a Santa Cruz, mas na verdade resolvi escrever isso justamente por estar pesquisando outras coisas pra fazer por lá. Espero voltar em breve pra conhecer las lomas de arena e também Samaipata, e também outros lugares desse país tão cheio de coisas pra descobrir.
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
Metrópoles.
Em outras viagens, pensei sobre como as metrópoles são homogeneizantes. Conhecendo Porto Alegre, fui pra Buenos Aires e achei uma Porto Alegre maior. Indo a São Paulo, me pareceu a mesma coisa só que maior ainda em alguns aspectos. Me sinto em casa em lugares assim porque me é tudo familiar, mesmo com particularidades. Porto Alegre tem o diferencial de ter um lago, os prédios modernos e antigos não são tão grandes, a urbanização foi bem irregular e construções clássicas e modernas, pequenas e grandes, coloridas e grises, altas e baixas, convivem num mesmo espaço. Em Buenos Aires é tudo extremamente grandioso e mais ou menos contemporâneo em unidade, sendo todas as construções igualmente magnânimas e antigas; as ruas principais são muito largas e compridas, enquanto as outras são muito pequenas e estreitas. Já São Paulo é grandiosa de outra forma, a maioria dos prédios é excessivamente alta e relativamente estreitos, a maioria modernos, entre os quais corre um trânsito caótico como o de outras metrópoles. Semelhança entre São Paulo e Buenos Aires é que nas duas não pega sol nas ruas devido ao tamanho das construções, o que me incomoda muito.
Apesar das diferenças, são relativamente iguais em suas lojas, restaurantes, supermercados, praças, carros, pedestres, murais pintados, pixos, outdoors, coisas pra fazer. Parece que as metrópoles falam a mesma língua, parece que as metrópoles são como as farmácias São João, com um roteiro exato de como se estabelecerem. Inclusive, há muitas redes de comércios estabelecidas, que tende a homogeneizar tudo. Não gosto disso, mas me é familiar. Estando na Bolívia, percebi que acabo sim gostando dessa homogeneização, justamente por me fazer sentir em um lugar seguro.
Aqui é tudo diferente e fora dos padrões do que me é conhecido. O comércio informal domina tudo, e nos lugares mais estabelecidos não existe o padrão de onde estarem as coisas. Não existem também as mesmas coisas, o que é muito bom, mas me estranha. Quando chegam as dificuldades, só quero que tenha algo familiar pra poder me apegar e sentir tranquila. Não sei onde encontrar o que preciso, me sinto perdida ao ver tanta feira tanto objeto aleatório tanta comida tanta cor tanto grito tanta gente. Me dá vontade de fugir e não consigo nem apreciar a diversidade, a novidade de algo que sei que é tão lindo mas que acabo não conseguindo admirar.
Era exatamente o que eu queria, vir pro lugar mais distante e mais diferente quanto possível, mas agora, aqui, me é muito custoso. Me assusta, ao mesmo tempo que é exatamente o que eu buscava. Gosto da mudança, mas sou resistente. Exercitar a paciência e a abertura são meus desafios.
domingo, 20 de agosto de 2023
me senti confortável na casa do luis e pensei em como me senti na casa do tobi. talvez o que eu sinta assim, em viagem, é o conforto de não estar com nenhum compromisso e poder descansar e passar um dia tranquilo, sem pressões. fora da minha própria casa, não tenho que cuidar de nada além de mim mesmo. quem sabe é esse o meu sonho de conforto, poder me desligar de tudo por fora de mim mesmo no lugar onde tudo o que me ronda habita juntamente comigo.
me siento confundida por aqui; se me parece que a cada día que pasa quedo peor en el idioma y comprendo peor lo que me dicen. también siento más dificultad en respirar, mucho cansancio, me cuesta despertar todos los dias por las mañanas. no sé si es por la altitud, por que estoy comiendo poco, si tiene que ver con el clima, la falta de lluvia, el sol tan fuerte que me quema a toda mi cara haciéndome descamar, arder, doler. no tengo convicción. ahorita quisiera salir, pero como se ofrecieron a acompañarme he cambiado mi idea, quedándome en el hotel. no sé también lo que es ansiedad y lo que es adaptación a un nuevo lugar. tal vez un poco de los dos, pero cómo separar las sensaciones? tengo que escribir más. al menos mi terapia es el jueves.
talvez seja também um pouco de tristeza, mesmo que não me pareça. ou falta de vitaminas, que causa tristeza. ou a loucura dos antidepressivos, de decidir tomar o ansiolítico e depois decidir não tomar mais. ou o excesso de mate, misturado com um pouco de tudo. falta de comida, falta de vitamina, irregularidade no antidepressivo, altitude, confusão linguística, cansaço, antibiótico, vinho, marijuana, o estranhamento de não estar mais sendo a pessoa solitária que sempre fui. agora me deu uma vontadezinha de chorar, o que seria ótimo se eu conseguisse. tem algo na minha garganta, como sempre. estou o tempo todo levando choques nas pessoas e objetos.
es raro.
sinto como sou uma pessoa solitária. me estranha muito estar sempre entre pessoas, sempre esperar uns aos outros pra fazer coisas juntos, mudar de ideia conforme a decisão conjunta. ando passando momentos muito compartilhados, mais do que já tive em qualquer outro período da vida. por um lado, foi o que eu já tanto quis em certos momentos; por exemplo, quando morava junto com pessoas que apenas dava oi, bom dia, e nada mais que isso. sempre quis morar com alguém que compartilhasse os momentos comigo. antes de viajar pra cá, tinha isso em parte, mas agora é completo: reparto o quarto com alguém, tem mais duas pessoas com as quais combinamos tudo, almoçamos juntos, jantamos juntos, tomamos café da manhã juntos, estudamos juntos, saimos pra passear juntos. não todos o tempo todo, mas alguém todo o tempo.
é estranho pra mim esperar pra combinar de ir no mercado, na academia, na loja de roupas. me acostumei a fazer as coisas sozinha, ter essa independência. e gosto muito de chegar em um lugar e explorar sozinha, fazer o que quero sem precisar esperar nem combinar com ninguém. não queria que viessem me buscar no terminal de ônibus pra que eu pudesse sair caminhando sem saber pra onde estava indo e chegar com a surpresa de não me ter perdido. gosto também de me perder em segurança, porque quando to com alguém dependo dessa pessoa pra que me leve aos lugares e não olho direito os caminhos.
aqui tem também a coisa da segurança. nos dizem o tempo todo pra tomar cuidado, pra não saírmos sozinhos, e sei que tem razão, afinal dois dos intercambistas aqui foram assaltados nas ruas em poucos dias sem ser à noite. sinto que se eu sair sozinha, nem que seja pra ir ao mercado, alguém vai me reprimir e dizer que estava correndo riscos. isso também não me agrada, mas não me agrada ser dependente de outra pessoa pra algo simples como dar uma caminhada na quadra.
tá sendo diferente. gosto das integrações, mas me sinto distante porque não consigo compartilhar na mesma intensidade que os outros. mesmo assim, me sinto bem de estar junto, mas sinto falta dos meus momentos sozinha. agora, que sentei pra escrever, to com tanto sono e cansaço que não é como se eu realmente tivesse tirado meu tempo. quero caminhar, pegar a bicicleta do hotel, ir na academia, comprar minhas coisas no mercado. não desgosto de nada, mas estranho a tantas coisas. ao mesmo tempo, parece tudo completamente normal.
terça-feira, 8 de agosto de 2023
São Paulo.
Chorei quando meus pés levantaram voo, e assim iniciei a viagem. Não eram lágrimas de tristeza, nem de felicidade; não eram também de saudade, nem de medo ou arrependimento. Foi tão natural e espontâneo que, naquele momento, quis chorar a viagem inteira. É algo tão raro de se acontecer comigo que me senti até feliz de estar molhando o rosto enquanto olhava pela janela para a asa do avião.
É ao mesmo tempo tão estranho e tão normal estar em um lugar novo... Por um tempo parece inacreditável a ideia de ir pra uma cidade distante e desconhecida, parece que não tem como existir algo tão distinto, espaços tão distantes. Depois, esse sentimento passa. Chegando, parece tão normal: qualquer lugar é um lugar como qualquer outro, a única diferença é que é outro lugar. Apesar disso, não se dissolve o encantamento de ver algo nunca antes visto; mas justamente por ser um lugar qualquer, assim como o que nos originamos e qualquer outro que já passamos na vida, traz o brilho de algo à primeira vista mesmo pra o que nos é corriqueiro.
Acho isso algo bonito das primeiras impressões. Pelo menos pra mim, me faz valorizar o que sempre vejo, e buscar sempre por alguma novidade. Tudo é tão parecido e tão diferente ao mesmo tempo que de imediato sinto como se eu já fizesse parte do que acontece, seguindo os fluxos naturalmente como se me fosse comum. Ando como se soubesse pra onde estou indo, com uma grande confiança que não coloquei na bagagem mas, mesmo assim, sempre anda comigo.
Assim segui os caminhos dos que andavam à minha frente, sabendo que iria chegar onde devia mesmo que não existisse tal chegada. Com mochilas pesadas e um desajeito natural de quem possui pouca experiência em carregar esse tipo de peso, fui guiada por calçadas, ônibus, trem, escadas rolantes, turbilhões de gentes. Nunca na vida tinha visto tantas pessoas e não imaginava que existia um local assim tão grande, tão difícil de assimilar. Fui seguindo, entendendo como as massas possuem influência. Difícil seguir contra essa força.
Só por um lado. Por outro, enquanto segue a torrente horizontal de passos e passos, algo multilateral chama o olhar para ser descoberto, todos os espaços mostrando sua magnitude. Só tendo os olhos abertos pra ver beleza na loucura cotidiana, e só com um pouco de loucura é que se tiram as raízes do chão para que caminhem e voem em novos lares.
Fecha a janela, esteja consigo; não há nada lá fora que te demande. A demanda de dentro ela existe, mas mesmo assim não te demanda; é só porque quer, e ela quer que tu queira. E tu, tu quer querer? Abre teus olhos pra dentro, abre teus olhos pra ti; qual o benefício de evitar o que realmente te faz bem? Me conta porque não existe vontade de assoprar tua chama interior pra que a brasa se espalhe e vire realmente um fogo. Tua fogueira aquece e não queima, se alimenta transformando a estagnação, e a cada piscada de olhos que tu dá em direção a ela é mais uma faísca que te acende. Faz faíscas, expande essa luz: queira. Mas queira sem compromisso, e, antes mesmo de querer, faça. Acende tudo aquilo que não fala, mas que vibra por dentro de um jeito incontrolável que tu tenta controlar. Ninguém sabe melhor do que tu que é impossível deter esse movimento, então deixa ele ser. Nada que vem de dentro vai estar errado. Te deixa ser.
Emocionada.
Me sinto tão pouco emocionada em relação às coisas que acabo pensando que tem algo errado comigo. Como alguém pode sentir mais intensamente que eu uma felicidade que devia ser minha? Penso se não dou tanto valor pras coisas, ou se é tudo tão normal pra mim que nada me surpreende o bastante.
Por outro lado sempre busquei algo assim. Quando era criança julgava as outras crianças que ficavam chorando ou rindo alto, não achava necessário e não queria ser assim. Hoje já tento imitar um pouco as expressões das pessoas, mas parece que nunca atinjo o que realmente deveria expressar. Acabo me envergonhando um pouco, e tentando imitar mais. O quanto to me afastando ou aproximando de mim mesmo com isso?
Ando tentando colocar sentido em coisas que nunca vi sentido algum, mas acaba sendo mais um dessignificar tirando de um extremo e colocando em um espaço neutro. Já fui contra muitas coisas, agora já não sou mais. Com isso, quem sabe fico ainda menos emocionada.
Gosto dos sentimentos, consto das emoções, gosto das sensações, mas não parece que tenho intensidades. Pelo menos não as instantâneas, e sim as que se desenvolvem ao longo do tempo. Parece que demoro pra assimilar o que acontece. Parece que minha forma mais instantânea de reagir é ficando com dúvida. O que isso significa?