quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Controle.

As frustrações chegam a partir de uma necessidade de controle, quando esse algo planejado não funcionou da maneira esperada. Passei aprendizados importantes sobre isso nos últimos dias quando pude ressignificar uma frustração a partir do sentimento de outras pessoas que estavam presentes no momento.

Fui dar um curso sobre viveirismo comunitário, mas senti que as pessoas que estavam lá não entenderam o que é o trabalho de um viveirista e quais são as etapas desse processo. Confundem viveirismo com trabalho de horta, com cultivo não compreendem a produção de mudas com fim nisso e percebem o coletivo e comunitário como pessoal. 

Na metade do dia, só me deitei na rede e fiquei pensando sobre a frustração que estava sentindo em relação ao não entendimento do que eu falava, e também dos empecilhos à atenção que estavam acontecendo. No meio da parte prática do curso, quando era pra todos experimentarem os processos, a metade do pessoal se distraiu fazendo uma fogueira no meio do espaço, o que atrapalhou muito a nossa dinâmica e tirou a atenção do que realmente importava ali. Na minha opinião do momento, porque inclusive o que realmente importava se modificou.

Foi muito frustrante pra mim, principalmente por pensar que era uma responsabilidade que eu não precisava ter tido; era algo que eu devia ter deixado de lado, mas, por outro lado, não teria acontecido se eu tivesse feito isso porque a nossa anfitriã fez de tudo pra que eu estivesse presente. De qualquer forma, foram esses sentimentos que me tomaram e me desanimei muito da continuidade do curso naquela tarde, me senti completamente sem energia e querendo desistir, deixando o resto pros meus colegas que estavam ali.

Mas não desisti e me coloquei pra falar o que eu achava necessário na continuidade do curso, já que quando incentivei minha colega a falar ela não colocou o que eu achava ser necessário naquele momento. E depois disso, que foi um resumo de tudo o que tínhamos apresentado sobre viveirismo, começamos uma roda de conversa sobre o que cada um achou do curso, e nesse momento precisei ressignificar o que tinha sentido.

Então foi algo muito intenso pra todo mundo, esse momento de partilha e troca. Pareceu que todo mundo gostou, e que ficaram pessoalmente tocados pelo curso e pela forma com que levamos ele. Pegaram as informações pra si de forma profunda, entraram em conexão com algo importante. E esse algo não foi exatamente o que passamos, mas foi importante o suficiente pra ficar. O que importou não foi o ensinamento em si, mas sim o que cada um absorveu dele, à sua maneira de acordo com suas vivências, e isso não pode ser frustrante. É, no fim, o que realmente importa.

Talvez o viveirismo não faça sentido pra todas aquelas pessoas. Acho que de fato não faz, ou pelo menos não de forma completa, talvez alguns fragmentos usados dentro do que cada um faz e sente. E isso é o bonito de ensinar, a intenção é que se construa o conhecimento único de cada um, sem certo ou errado e sem a ideia do conhecimento na folha em branco. Não é possível de forma alguma controlar o que o outro aprende, escuta, sente, ressignifica, absorve, deixa passar. E a intenção de trabalhar com comunidades é justamente essa, a de criar novas coisas, novas formas de agir, de ver o mundo, de sentir as experiências e gerar possibilidades.

Percebi como costumo querer controlar o que acontece, como não aceito que as coisas saiam fora do meu planejamento. E é justamente isso, a falta de controle, a aleatoriedade, as diferenças, as perspectivas, que tornam a vida e a convivência tão lindas. 

Deixei de sentir a frustração em relação ao objetivo primeiro do curso, que não foi atingido, mas aprendi que o objetivo desse trabalho, na verdade, é outro, muito além do que eu imaginava. E que é nesse objetivo que tenho que trabalhar, com as possibilidades abertas, sem controle, e me permitindo amolecer. 

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Perdas.

Ultimamente ando perdendo muitas coisas. Uma toalha, uma touca, uma luva, um guarda-chuva, um casaco, um protetor auricular, uma série de coisas que foram ficando pelos meus caminhos. Me faz pensar sobre como sempre tive apego a objetos materiais e como sempre me foi sofrido perder algo, ficava por dias na minha cabeça aquela ausência física do objeto deixado pra trás. 

Agora parece que nem faz diferença, como se as coisas tivessem perdido o valor. Mas não é como se tivessem valor e agora não considero mais, pelo contrário. Penso que o valor era eu quem colocava em coisas que não o possuíam em tal intensidade, e por isso agora viraram apenas o que são: coisas.

Lembro daquela já clássica frase que diz ser bom se perder pra poder se encontrar. Vejo um paralelo entre essas perdas simbólicas e as minhas perdas concretas, percebendo que às vezes posso ser tão concreta que preciso perder literalmente objetos pra perceber que eles não eram parte de mim. Como alguém que perdeu uma terceira perna pensando que passaria a sentir desequilíbrio, mas passa a se sentir mais leve e livre.

Nunca quis me sentir parada, mas com tantas pedras nos bolsos não tem como se movimentar. Não era possível tirar elas voluntariamente, eram todas partes de mim, mas conforme foram abrindo rasgos nas calças elas foram caindo sem deixar culpa, assim como o próprio tecido foi sendo deixado pra trás permitindo descobrir a verdadeira pele. A pele que deixa o sol queimar. 

Nessas idas e vindas, deixo. Nessas voltas e retas, busco o que já tenho mas não está aqui fisicamente. A concretude da leveza que permite ir e ser, os objetos que não nos descrevem nem são partes constituintes do corpo. O corpo que em si próprio também se desfaz em metáforas e muda de formas conforme a vida anda e os caminhos são trilhados. 

Estou perdendo coisas pra poder mudar e compreender que em verdade nada falta que eu já não tenha.

sábado, 8 de julho de 2023

Afeto.

Sinto o afeto transbordando, sem medo nenhum de entrar no oceano que é compartilhar isso com o outro. E que outro, pode ser um qualquer desde que retribua. Alguém que se transborda também e viramos correnteza de carinhos. Onde isso vai levar não importa, e a intenção é que não leve a lugar nenhum além do caminho percorrido no momento do afeto, quando os corpos se acariciam como se fossem velhos conhecidos, mas sem nunca se terem cansado um do outro. Quando os pés se encostam, as costas esquentam um peito, os dedos movem na nuca e os braços apertam forte um corpo pela primeira vez, num abraço cheio de amor e felicidade. A completude momentânea de se deixar levar pela espontaneidade, mesmo que não se conheça, e mesmo que nem vá se conhecer, sem o medo de criar ilusões de um romance que não é desejado. 

Que o amor não seja exclusivo de um romance concreto, mas passível de ser compartilhado com conforto, respeito e reciprocidade; que seja um vento morno de aconchego e tranquilidade nas peles e corações abertos. 

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Violência temporal de segundo em segundo.

 Não quero acreditar em segundos. Como querer acreditar em algo tão intensamente violento? A suposta existência dos segundos faz com que eles sejam considerados como entidades reais, que nos apressam ou fazem esperar - apesar de mais apressarem. 

Parece que minha vida passou a ser pior quando comecei a me importar mais com segundos e minutos, ou melhor, quando percebi que segundos e minutos eram cobranças. Mas que diferença faz chegar em algum lugar aos 29, 30 ou 31 minutos de algum horário? E a diferença real de 40 pra 45? No fim, acaba sendo uma violência pra mim; perco parte da minha paz pra, por 20 segundos, não deixar passar dos 59 pros 00, sendo que mesmo que eu demore dois minutos não vai ter diferença alguma. Mas o que importa não é a diferença real, mas a inventada, e a ansiedade de quem espera, que já está ansiando mesmo aos 54. 

Saber o horário suposto em que um ônibus vai passar, observar o semáforo perdendo números até mudar de cor, fechar os olhos às 7:58 porque o despertador toca só às 8 em ponto, sabendo que vai se assustar ao ouvir. Sendo que dois minutos antes o corpo estava mais descansado e disposto do que depois de esperar, atentamente, deitado na cama, o toque estimulante e estressante de tons definidos por empresas de aparelhos eletrônicos. 

O único tempo que, pra mim, devia existir, é o natural do dia e da noite, e o ano poderia também ser dividido apenas pelas estações. Todo o resto da temporalidade é inventada e, pra mim, violenta na medida que nos impõe algo que temos que acreditar independentemente da vida que desejamos. Não quero ter cinco dias de trabalho e dois pra descansar, não quero a obrigação de sair de casa num temporal, ainda mais correndo de pés molhados pra não perder o horário. 

A violência temporal nos é imposta de segundo em segundo. A resistência é manter o passo lento, o respirar suave e o olhar no céu. 

Borda.

 É estranho o sentimento de não estar em nenhum lugar. Já não vivo em Porto Alegre porque minha intenção tá longe, mas não vivo ainda em nenhum lugar diferente daqui porque é onde meu corpo repousa e se move. Não sei como fazer pra conciliar cada coisa em seu lugar, o corpo e a ideia em coabitação pra dentro e fora da minha pele. Nem minha língua é a que quero falar, penso e tento escrever em espanhol, mas as frases me travam e percebo que não consigo me expressar o suficiente. E é um momento em que, especialmente, preciso me expressar, porque é tanta novidade que não posso deixar que as palavras me fujam justamente nesse momento da vida. 

Onde eu to, se é com ânsia de sair de um lugar e com medo de chegar no outro? Como eu tô, se o que vivo não é nem o que me acontece e nem o que me vai acontecer? Tô sentindo nesse meio termo, nesse espaço em que nem subo nem desço, nem entro nem saio, como se estivesse flutuando à espera. E ao mesmo tempo, mais do que nunca, precisando agir, porque nada se resolve sozinho, nem a vida de cá e muito menos a vida de lá. Sigo esse caminho por la orilla. 


terça-feira, 6 de junho de 2023

Deller.

Tenho medo que o antidepressivo me tenha feito entender menos do que acontece comigo. Que ele mude as ligações e mensagens dos meus neurotransmissores a ponto de não me permitir enxergar sentimentos e sensações, e por isso me sentir melhor, por ser forçado a ignorar algo que tá dentro. Pensei isso quando percebi que me sentia bem há meses, sem ficar num estado de tristeza maior que no momento exato em que ela acontece, mas que tava começando a sentir muita ansiedade e, apesar de pensar que tava bem, ver que meus dedos estavam todos sangrando de arrancar pele com os dentes. Como posso estar bem se minhas cutículas estão constantemente na minha boca deixando sangue correndo pelo canto das unhas? Não pode ser assim.
Pensava que já tava bem o suficiente pra poder parar ou diminuir a dose dos remédios, mas isso de roer os dedos e o surto repentino que tive e comentei nos últimos textos me fez querer parar justamente pelo motivo contrário; talvez eu não esteja suficientemente bem, e pra melhorar prefiro ser capaz de entender por que sofro do que ter enganos nas minhas sinapses que me fazem sentir que tá tudo bem. Mas é tão complexo. Posso estar certa, posso estar errada ou pode simplesmente não ter nada a ver com nada disso.
O que importa é realmente estar bem, não importa a maneira? Claro que não quero mais sofrer, há 15 anos tenho crises e apelei pra um tratamento psiquiátrico porque simplesmente não aguentava mais viver dessa forma. Cheguei à conclusão que isso nunca vai passar na minha vida, o que é muito frustrante, mas acho que realmente não tem jeito além de me acostumar com as reduções e tentar sempre diminuir mais e mais os sintomas, apesar de sabendo que sempre podem voltar a qualquer momento.
Queria saber se isso tudo faz algum sentido. Queria saber como são as mensagens dos meus neurônios e o que se modifica nelas tomando succinato de desvenlafaxina ou qualquer outro medicamento que seja. Queria saber como faz pra chorar, porque penso realmente que isso resolveria muitas coisas na minha vida. Mas não choro, não entendo o que tem dentro de mim seja com ou sem antidepressivos, e tenho essas confusões sobre o que é o certo a se fazer. Mudar doses sem acompanhamento médico é sempre ruim, mas acho que ela não ia aceitar minha decisão e eu ia acabar diminuindo igual... pelo menos não parei de tomar, igual muitos fazem. O que será que vai mudar em mim?

domingo, 28 de maio de 2023

Superestimulada.

Pra quem começou a ter crises de ansiedade com 10 anos de idade e hoje tem quase 30, ou seja, pra alguém que passou mais anos da vida lidando com isso do que sem se sentir assim, não é possível saber como a vida seria se não fosse dessa forma. Assim como alguém que nasceu cego não consegue imaginar as cores, alguém que não sabe não sentir ansiedade não sabe como é isso. 

Hoje foi a primeira vez na vida em que eu realmente percebi isso. Estava em um taller de candombe com um professor uruguaio, e no mesmo local estava  ocorrendo também o taller de baile de candombe. Sentamos, os tamboreiros, em um círculo de um lado do espaço e as dançarinas ficaram do outro lado. No meu lugar, meio de lado, eu podia ver os movimentos das bailarinas pelo canto dos olhos, ao mesmo tempo que, pelo outro canto dos olhos, via meus colegas do tambor. Com o foco da visão, tentava mirar fixamente o professor e seu tambor, mostrando os toques que precisávamos fazer. 

Tem gente que nunca sentiu algo assim como um superestímulo. Pra mim, prestar atenção na aula já era o suficiente, tamanha a densidade de conteúdos que ele estava passando. Mas não sou capaz: meus olhos e atenção são puxados pra tudo que acontece à minha volta, e esses estímulos além do principal fazem um ansioso ficar observando o que acontece ao seu redor ininterruptamente, mesmo sem estar buscando nada que aqueles olhares vão dar.

Mesmo com isso, mantive o foco absoluto no professor. Mas o barulho de 30 tambores, as palmas em outro ritmo das professoras de dança, os pés das bailarinas se mexendo na visão periférica, tudo isso é demais pra conciliar com uma tentativa de hiperfoco no professor. 

Quando fez um intervalo, saí praticamente correndo pro lado de fora do lugar. Um cara que saiu pra fumar perguntou se tava tudo bem, eu disse que sim e expliquei um pouco: é muita informação, preciso dar uma descansada na cabeça porque to ansiosa. Ele não perguntou muito, inclusive respondi coisas além do que ele questionou, senti necessidade de explicar; mas ele nem me ignorou e nem ficou superinteressado na história, o que foi bom, talvez ele compreenda um pouco de ansiedade.

Mais umas três pessoas perguntaram isso, e cada uma teve uma reação diferente. Pra uma eu disse sim, to tranqui, e isso bastou pra ela. Pro professor, respondi que sim e que a aula tava sendo incrível, só era coisa demais e eu precisava descansar. Pra outra, respondi que eu tava com estímulos demais e isso me dava ansiedade, e ela foi incapaz de responder. Perguntou perguntas sem resposta, e percebi várias vezes que ela era simplesmente incapaz de entender porque nunca sentiu algo parecido. O que é estranho pra mim, alguém que tem isso como sendo a normalidade. 

Pensei sobre isso. Talvez eu fosse a única pessoa ali que tava sentindo algo do tipo. Pensei que, talvez, é sempre assim, só eu to sentindo isso. E, além disso, os outros não podem nem imaginar o que to sentindo, porque é impossível entender. 

Nesses momentos, faço o que preciso fazer. Em outra situação que se seguiu a essas aulas, peguei carona com alguém que pra mim conviver é muito ansiogênico e ele me colocou em uma série de situações ansiogênicas uma pior que a outra. Quando consegui, finalmente, sair do carro, saí praticamente correndo com o meu tambor. Ele e a outra caroneira gritaram algumas vezes Obrigado, De nada, coisas assim, chamando meu nome e estranhando minha ação tão abrupta de fugir daquela série de situações. Olhei pra trás e disse: desculpa, é que eu tava me sentindo mal e precisava sair dali. 

Daí, depois que o motorista foi embora, a caroneira veio atrás de mim perguntando se eu tinha dito que tava me sentindo mal, e por que isso. Nesse momento, sendo ela a mesma que não entendeu antes quando falei do superestímulo, justifiquei minha ação assim: tenho transtorno de ansiedade, por isso não soube lidar com essa situação e precisei me retirar. Resposta automaticamente suficiente. Mas por que preciso justificar minha ação com um atestado clínico?

Quero poder agir sem culpa e podendo fazer o que sinto que é melhor pra mim, sem que isso cause tanto espanto e tantos questionamentos. Principalmente se é numa questão como essa, em que não adianta perguntar e obter resposta porque é impossível pra alguém que nunca se sentiu assim saber o que realmente se passa. Assim como é impossível pra mim saber como é não sentir ansiedade.

Tu tá bem?

O que devo responder quando alguém pergunta se eu to bem, mas a resposta tá além do sim e do não, em um lugar que nem eu mesma compreendo a resposta?

Sim: é mentira, porque a resposta não tá na categoria de dualidade

Não: é mentira também, porque, além de estar fora da categoria de dualidade, vai provocar uma contra-resposta que não vou saber e nem querer responder.

Mais ou menos: não existe meio termo; isso seria como um sem sensação, numa escala linear indo do sim até o não, mas a escala não é essa, inclusive não existe escala. Estando além da dualidade, não existe meio termo.

Melhorando: implica que estava mal e que agora estou ficando bem. De fato não é um estado agradável, mas que ele passe não significa exatamente uma melhora. Pode ser um processo. 

To em processo: alguém vai perguntar que processo, ou o que aconteceu. Essas respostas são complexas demais pra serem ditas, isso quando é possível saber e expressar.

To assimilando: alguém vai perguntar assimilando o quê, ou o que aconteceu. Mesma coisa.

Parece que todas as respostas possíveis vão implicar em uma mentira ou uma contra-resposta em que eu vou precisar explicar algo. A maioria das pessoas ou não quer saber, ou não vai ser capaz de entender. Não vale a pena gastar palavras, energia, sinceridade, pra qualquer um desses dois casos.

O melhor é ser sutil, não demonstrar bruscamente o que está acontecendo, que é o que ando fazendo. Acabo praticamente correndo pra outro lado, seguindo minha intuição do buscar um lugar em que as coisas estejam passando da forma mais próxima possível do contexto que sinto que preciso estar. Isso leva a essas perguntas. Ao mesmo tempo, fingir que tá tudo bem e agir normalmente é o que sempre fiz a vida toda. Como conciliar isso?

Não preciso demonstrar, mas não preciso mentir. Posso agir de forma mais tranquila e sumir da situação, sem causar espanto e até sem ser percebida. Se perguntarem outro dia, melhor, aí vou ter mais capacidade de responder. 

Se eu to bem?

Não sei.

Essa é outra resposta que causa dúvida em quem ouve, e causa também uma culpa de não saber explicar o que a pessoa quer saber. Se respondem perguntando: como assim? É quase obrigatório dar a explicação de por que eu não sei. Mas essa explicação simplesmente não existe, eu não sei porque não sei, eu faço terapia porque não sei e mesmo assim não descubro, e, sinceramente, tem coisas que a gente não precisa saber, nem nós mesmos e nem nenhum outro.

É tudo tão complexo. Acho que essa foi a melhor forma de expressar o que to sentindo. 

No fim, qualquer coisa que não for um sim não vai ser bem recebida. É como se não pudesse existir outro estado além do bem, que é o estado desejado e desejável que todos estejam. Como explicar que não é preciso estar bem, mas que isso não significa que não esteja tudo bem/esteja tudo mal?


domingo, 21 de maio de 2023

Trabalho braçal.

Hoje aprendi a usar algumas ferramentas da agricultura.

Inseparável de quem trabalha na lida é o facão, sempre na cintura. Nos guia e protege, abrindo os caminhos e dizendo que podemos passar. Com ele, abrimos as trilhas já existentes e podemos desbravar o ambiente descobrindo novos rumos. Facão na mão, não há nada que não possa ser trilhado ou criado. Uma expansão do braço que é fluida, corta o que não se deseja e molda o que é preciso modificar. Pode se tornar um perigo pra quem não tem coragem, mas a tentativa e olhar atento ensinam seu uso.

Uma extensão maior ainda do braço é a foice, que chega até lugares mais distantes pra expandir os rumos que vislumbramos. Enxerga o que o facão não vê, o que vem mais de cima ou mais de baixo, na distância mais imaginada do que vista. Com sua lâmina criamos meias-luas e círculos aos nossos lados, baixando cipós e galhos, desenredando as teias reais e imaginárias do que nos pode prender. 

A enxada é bruta e terna de uma só vez, batendo com força pra retirar plantas indesejadas e amolecer a terra. Cria um ambiente agradável, mais fácil de se respirar quando imerso nele. Revira a terra trazendo coisas à tona e derruba o que vem se espalhando e trepando sobre nossas bases. Tudo o que se move se transforma, e esse é o potencial de mistura dos elementos, criando o berço pra que algo possa nascer.

Mais forte e intensa do que a enxada é a grande e pesada picareta, abridora de buracos, quebradora de pedras. Com seu peso, rompe o que impede que as raízes ultrapassem, o que não deixa sementes se estabelecerem, o que precisa sair pra que outra coisa possa aparecer. Permite que se veja o que há nas profundezas da terra, os segredos escuros por baixo da superfície, os corredores secretos dos seres minúsculos. Faz subir o cheiro do que está escondido e quebrar o que impede que algo cresça, pra uma semente ou muda poder ser plantada com acesso à energia de todos os estratos.

A pá por sua vez é o movimento que leva um suprimento de um lugar ao outro, que libera espaço e ajuda a carregar mais rapidamente algo que demoraria mais pra se movimentar. Tirando pedras, terra, folhas, permite a mudança e a reviravolta. 

Já a lima é uma chave importante. Pequena e invisível da lida, tem seu papel essencial na potencialização das ferramentas. É o que permite que elas trabalhem, fazendo o fio e dando funcionalidade. Com seus detalhes e sutilezas, ao mesmo tempo que sua força de desgaste cria a lâmina que corta e faz o trabalho prosseguir. Sem essa ferramenta tantas vezes esquecida, o manejo dos espaços seria impossível. A lima é a preparação, o que traz a força das ideias à realidade concreta e permite que o primeiro passo seja dado. É como o fogo que se acende no peito trazendo a realidade da ação imaginada.

Aprendo muito com as ferramentas, sobre o trabalho e sobre mim. Tudo o que se descobre, as similaridades do fora e do dentro, que parecem separados mas são um só. Ser função num sistema, ser objeto que molda, ser natureza que cria, ser natureza que é criada a cada instante, cada aprendizado, cada sentimento, cada intuição. Cada cheiro de terra, cor de fruto e textura de folha, cada som de facão, enxada e lixa, cada lampejo que passa por dentro, tudo é trabalho, e o real significado do trabalho é que seja parte indispensável da vida, não pelo outro mas por si: pra se criar um motivo de viver. 


sexta-feira, 19 de maio de 2023

V de espadas.

 O tarô, como sempre, me dá uma grande lição; eu queria perguntar sobre os motivos da ansiedade que sinto e o que devo fazer pra me sentir melhor, mas nem precisei, porque na minha carta semanal do conselho da lunação já me veio essa resposta.

Ainda sou estudante do baralho de Marselha, como acho que pra sempre vou ser. O que penso sobre o V de espadas é a instabilidade mental e conflitos transponíveis, algo que se estabelece depois de uma estagnação pra ser ultrapassado, não sem alguma dificuldade, e finalizar em uma harmonia. 



Meus estudos são sempre com Marselha, mas gosto de usar Waite como uma forma de expandir o significado dos números e naipes, sempre cuidando pra não me apegar à imagem desenhada; penso que isso pode ser limitante, mas vejo como um auxílio pra quem tá aprendendo. Assim, olhei a imagem e percebi a derrota em uma batalha, dois perdedores e um vencedor. Sendo espadas o naipe da mente, lembro de uma frase que meu pai costuma dizer: "quando algo não tem solução, já está solucionado". 

Essa derrota mostrada na carta toma forma também de uma desistência, visto que as pessoas ao fundo ainda estão vivas e aparentemente sem ferimentos; na verdade não parecem ter perdido, mas decidido ir embora. Foi uma escolha, antes de serem incapazes. Solucionaram sem buscar uma solução ativamente, mas aceitando a única solução possível.

Com isso compreendi o que minhas próprias palavras disseram quando olharam pra essa carta como meu conselho da semana: instabilidade mental e conflitos transponíveis mostram que um excesso de pensamentos não leva a algo construtivo senão a derrota, que mostra a sabedoria em transpor esse conflito através da desistência pra que novos caminhos possam ser trilhados. 

O momento pessoal que vivo é de muita ansiedade, e percebi, com isso, que quero coisas demais ao mesmo tempo e tento exercer todas elas, obviamente sem sucesso na maioria. Tenho dois trabalhos, a faculdade, quero tocar bem vários instrumentos e compor músicas, escrever poemas e outros textos, ler poesia, literatura e trabalhos sobre temáticas que me interesso, quero me alimentar bem e me exercitar na academia, pedalando, no yoga e aprendendo a dançar, meditar, aprender a mexer na câmera fotográfica que tenho e tirar fotos de plantas e paisagens, terminar minha carteira de motorista, dar rolê na noite com amizades, ver amizades sem ser em rolê, aprender a falar espanhol, não deixar o inglês de lado, estudar tarô, exercer minha magia, e além disso tudo resolver situações que nem existem, como três relacionamentos irreais e dificuldades de um intercâmbio que ainda não fui selecionada. Coisas demais pra focar. Não existem prioridades; ou é uma prioridade, ou não é. E o que é minha prioridade, o que é meu foco, e o que são as demais coisas mais importantes e que quero realmente realizar agora?

O naipe de espadas sempre vem atrás de mim, aqui com meu sol e mercúrio em virgem e lua em capricórnio, além dos aspectos que me fazem ter dificuldade em entender sentimentos e comunicar eles pra mim mesmo. Sempre a mente, sempre a ansiedade que não cessa; o V de espadas vem me trazer muita sabedoria em um momento óbvio que não tinha percebido o que fazer. E vem me relembrar o ensinamento que meu pai fala repetidamente desde que eu era criança, e que por muito tempo não dei valor e até achei irrelevante ser repetido tantas vezes. Mas é verdade: se não tem solução, tá solucionado.

A sabedoria dessa carta, nesse meu momento, é a de desistir dessa briga com o tempo e com minha própria energia. Às vezes, a derrota é uma vitória e o único jeito de sair vitorioso. 

sábado, 13 de maio de 2023

Felicidade.

Um dia me peguei observando um grupo de 100 crianças brincando em um grande campo. Elas corriam, chutavam bolas, pulavam cordas, se escondiam, gritavam, mexiam seus pequenos corpinhos com seus sorrisos no rosto. 

Quando eu era criança, não me identificava com os outros da minha idade e tinha a tendência de achar todos eles idiotas. Fui uma criança parada, silenciosa, envergonhada, reprimida e, por isso, julgadora. Enquanto observava aqueles montes de criancinhas, meu primeiro pensamento foi o mesmo da minha infância: que idiotas, pra que ficar correndo e gritando? E meu segundo pensamento, pela primeira vez, tentou buscar essa resposta. 

Como não tinha outra coisa a fazer senão isso, fiquei ali sentada observando de longe. Adultos dão vários motivos pra necessidade das crianças brincarem; o desenvolvimento da coordenação motora, da força muscular, de habilidades espaciais, de relações sociais, construção de identidade, imaginação, isso entre as que pensei agora. Mas, pras crianças, nada disso interessa, elas não possuem esses motivos. Por quê, então?

Se não pensam em fazer amizades, se não pensam em desenvolver seus corpos, mentes e emoções, pra que ficar fazendo coisas aparentemente tão sem sentido? Então me veio a resposta: pra gerar felicidade. Não há outro motivo pra brincadeira senão o de gerar felicidade, acender algo dentro de si que vai agir como uma energia, um impulso que traz sensações boas.

Perceber isso me entristeceu e me fez pensar. Me deu vontade de sair correndo e começar a ir atrás das criancinhas, gritando junto a elas, compartilhando seus brinquedos e brincadeiras, mas algo me impediu. Um pouco de preguiça, de frustração, de culpa, de vergonha, de incapacidade também, não sei exatamente. Além da tristeza, a pergunta: o que eu faço exclusivamente com a intenção de ser feliz? O que eu faço que me acende algo dentro do peito, que me faz ter vontade de viver, de agir no mundo, que me dá a força física de levantar o corpo e exercer o que quer que seja?

Me percebi em um ciclo vicioso. Não tenho energia, então não consigo realizar coisas pra mim; não consigo realizar coisas pra mim, então não tenho energia, porque é isso que gera a vontade de viver. As coisas sem sentido são as que dão força de vontade pra exercer as tarefas necessárias da vida, as coisas sem sentido que colocam a felicidade de conseguir viver. A realização da criatividade pela criatividade, do movimento físico pelo movimento, da espontaneidade apenas pela expressão, sem a intenção de mostrar pros outros, de produzir uma obra, de se exercitar, é o que nos faz ser felizes. E me entristeceu perceber que não faço isso.

Pensei sobre todas as coisas que eu gosto; de tocar instrumentos, mas tenho vergonha mesmo de ensaiar pra mim mesmo porque me comparo aos outros, me considero ruim, penso que tenho que poder mostrar isso pra alguém com propriedade e assim perco a espontaneidade e não tenho a energia necessária pra fazer. Escrever, mas na hora que tenho as ideias não paro de fazer o que estou fazendo pra colocar elas no papel e quando decido fazer isso, acaba sendo um compromisso conseguir escrever e, além disso, escrever algo de valor estético e poético, e assim travo e não acontece. De me movimentar, mas tenho vergonha dos meus movimentos e julgamentos que posso receber sobre eles, mesmo que saiba que na verdade a única pessoa que está julgando sou eu mesma, além da preguiça e falta de energia pra mover mais do que alguns dedos pra escrever essas palavras. De observar paisagens e meditar, mas o tempo é tão curto e tenho tantas coisas a fazer que isso acaba sendo um desperdício dos míseros poucos minutos que me dedicaria nessa atenção.

Consigo identificar algumas coisas que me deixam feliz com esse único objetivo, mas acabam sendo ilusórias porque não passa de um engano. Posso me embebedar, fumar maconha, fazer uso de qualquer substância que sei que vai me trazer bons momentos de diversão e felicidade, mas não é o suficiente pra gerar essa chama no peito que dá vontade de viver.

To procurando. Mas o pior dessa procura é encontrar, mas não conseguir exercer e prosseguir sentindo vazio, triste e frustrado com a vida, que é tão linda. 

terça-feira, 18 de abril de 2023

A Sacerdotisa e A Justiça.


O dois e o oito: ambos números de equilíbrio. Nunca tinha me dado conta de como essas duas cartas de Marselha são tão parecidas até tirá-las conjuntamente como um conselho. A intenção era apenas uma carta, como peço a cada entrada de lunação, mas dessa vez, sem perceber, peguei duas como sendo uma só e apenas aceitei porque o tarô nunca erra em seus sinais. Foi um espanto perceber dois arcanos maiores, algo que não acontece tão frequentemente considerando a relação de quantidade entre estes e os menores. E ainda dois tão semelhantes.

A mensagem demorou um pouco pra aparecer, e veio a partir das comparações. Primeiro as semelhanças: o manto azul sobre o vestido vermelho, os pés cobertos, as mãos segurando algo à frente, o dourado dos adornos, as coroas, a posição sentada, o rosto sereno, o objeto cadeira/manto atrás da personagem em formato parecido. Depois, as diferenças, mais sutis: os objetos diversos nas mãos, sendo um livro na sacerdotisa e uma espada e uma balança na justiça, a direção do olhar, para a esquerda ou para a frente, a fluidez ou rigidez do plano de fundo, o número. 

Como força yin, as duas chamam o olhar para nós mesmos, para os próprios processos internos ou, mesmo quando externos, baseados na subjetividade. Meu recado da semana foi pra ler o livro de mim mesmo, olhando pra dentro e imergindo nos meus sentimentos e fantasias, e a partir disso  observar e avaliar, com coragem e parcimônia, o que fica e o que deve ir. 

Um recado especial me deram os planos de fundo das duas cartas: enquanto a Sacerdotisa tem uma cortina solta, com ondas e curvas, a Justiça tem uma cadeira perfeitamente sóbria e simétrica. Essas formas lembram asas, o que me mostra pra viajar nesse material interno, pra voar por todos os cantos de mim, me permitindo planar pra fazer essa observação e avaliação atenta. Sinto também o recado de organizar esse material amplo, que é bagunçado nas primeiras asas que olham pra trás e organizado nas asas que olham pra frente, impelindo a uma clareza de visão, assim como o terceiro olho na fronte. 

Outras mensagens de internalização aparecem nos pés, que na verdade não aparecem, e no manto azul que recobre o vermelho. É pra que eu voe cobrindo a racionalidade e sem os pés no chão; que a história desse livro da vida possa ser lida com a intuição, pra isso usando a coragem e as ferramentas disponíveis pra trazer o equilíbrio. Mas que seja fluido como os panos, como as águas, como uma balança estabilizando um peso, como um vento que sacode asas, como as ondas que o inconsciente traz de fundos tão fundos. 

São sábias mulheres que muito ensinam em suas figuras tão estáticas de papel e tinta, mas tão móveis em todos os olhares e sentidos que nos podem trazer. 


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Não me leve a mal.

Tive que me obrigar a perder parte da minha inocência pra ser capaz de viver nesse mundo, e, mesmo assim, não foi suficiente. A parte que sobrou duvida que algumas coisas são realidade, e, quando percebe que é verdade, já não há mais tempo pra reagir. Enquanto isso, o outro lado vive sua vida normal de homem que arranja desculpas e se vitimiza pra justificar um assédio, e é legitimado pela falta do constrangimento que não fui capaz de proporcionar. 

Um dia inteiro me oferecendo cerveja, me chamando de longe pra encher meu copo, falando comigo em inglês e cantando músicas românticas. Na inocência, pensei ser só a ação de um velho bêbado sendo de seu próprio tempo, e justamente é esse o problema: ele era exatamente isso, um velho bêbado do seu próprio tempo, o que foi justificativa suficiente pra que, na primeira oportunidade, se grudasse nas minhas costas enquanto eu lavava um copo na pia.

Pediu desculpas, não me leva a mal, achei que tu fosse ela, e aponta pra outra mulher próxima, como se nela ele pudesse fazer o que havia feito; provavelmente nem a conhecia. A minha resposta foi só um qual é que é meu, respondida por um não me leva a mal não, e pronto: mais um homem que vai continuar sendo exatamente como é. 

É tão difícil isso de ser responsável até pelo assédio que recebo, pensando que pra mudar algo, pra isso não acontecer de novo, sou eu que preciso reagir, eu que preciso fazer algo. Eu que preciso ser responsável por dizer de alguma forma, seja branda ou bruta, pro velho homem branco que ele agiu mal. É quem sofre que fica a cargo, primeiramente, de ensinar o assediador, já não bastasse todo o peso de ser assediado. E, assim, acaba não mudando muita coisa, por já ser gasto demais de energia ter sofrido isso até pra poder reagir no momento. É mais fácil deixar assim mesmo e não se preocupar, pra não se incomodar com a resposta justificadora e sem razão do outro. 

Mas não quero que seja assim. Quero, primeiramente, não passar por isso de novo, mas, caso aconteça, não ser inocente o suficiente pra pensar à primeira vista que foi sem querer, e, à segunda vista, pra não ter palavras de repulsa pra expor o ato. Quem não tem razão é que tá vencendo na sociedade. É um peso ter razão e ser tomado como louco, mas peso maior ainda, pra todas, é ter que ficar em silêncio.

sábado, 15 de abril de 2023

Cegueira colonialista.

 Tem coisas que algumas pessoas não conseguem entender, por estarem demasiadamente concentradas no próprio ego. Presenciei algo assim há poucos dias, experiência que foi potencializada por uso de psicodélicos, fato que não retira a veracidade do relato e inclusive o torna ainda mais real. Era um show em um festival de música; Ọ̀ṣẹ́ẹ̀túrá Africa'n Jazz no Festival Pira Rural. Foi algo inacreditável. O artista principal era um nigeriano, Akin, tocando bateria e dividindo o palco com uma percussionista, uma baixista e um saxofonista. Inacreditável é o adjetivo que tenho pra isso, fiquei refletindo sobre como era possível ensaiar coisas tão absurdamente complexas, pensando onde estavam os limites dos combinados e da improvisação e em como cabia na cabeça daqueles músicos coisas tão virtuosas assim. Parecia que cada um tocava seu instrumento em um ciclo dividido em tempos diferentes dos tempos do outro, se sobrepondo de formas difíceis de compreender, mas que em algum momento se encaixavam de novo perfeitamente e seguiam seu caminho conjunto até se perderem em outros rumos distantes pra depois se encontrar de novo, em ciclos musicais de altíssima qualidade. Mas o que venho contar não é sobre a música em si, mas sim sobre a falta de capacidade de escuta, não apenas da música.

No palco era um nigeriano que convidou outros dois músicos, um de Angola, o Kizua, e um da Costa do Marfim, o Loua, que inclusive é conhecido meu e me trouxe uma admiração tremenda ver o quão absurdo ele é como músico. Akin, entre as músicas, falava um pouco com a plateia sobre temas da cultura africana e dava sua real contando as impressões sobre os outros e sua visão do racismo vivendo no Brasil. Ele disse que, quando se ouve uma pessoa negra falando de sua cultura, não se deve pressupor os motivos de algo ser assim ou daquele outro jeito baseado em preconceitos, mas sim buscar saber o real motivo das coisas, perguntar, procurar entender. É comum pensar que uma cultura age de tal forma por tal e tal motivo, o que é sempre um pressuposto racista e colonizador de quem pensa que sabe de tudo e se vê como superior, sem conseguir abrir os sentidos pra outras vivências além da sua, colonizadora. E foi nesse contexto que o artista foi repetidamente alvo de tentativas de silenciamento através de manifestações da plateia, branca, batendo palmas incessantes e gritando frases como "fora colonialismo" enquanto um negro, nigeriano, africano, olhava de cima de um palco dizendo resumidamente, "não sejam colonialistas" e ouvia dessa plateia a simples resposta: "não estou te ouvindo", egoicamente mostrando sua falta de empatia e desinteresse completo em compreender o outro. 

Como se não bastasse, a falta de escuta não foi apenas no discurso, mas também na música. Era algo a ser contemplado, com atenção diferenciada, mas eu e alguns amigos percebíamos como aquilo era tido por muitos como apenas uma festa qualquer, uma música legal pra ficar louco, pra gritar, tomar um trago, sem entrar na complexidade da mistura do Brasil com a África, com elementos do jazz, tambores, rap, línguas nativas, cantos étnicos, reais anticoloniais, toda a força e intensidade daquelas influências tão diversas que formaram algo tão único como o que estava à nossa frente. Nada importava, enquanto eu e algumas pessoas mais interessadas e sensíveis estávamos quase que hipnotizados olhando aquele verdadeiro show. Foi bem frustrante pra mim perceber esse racismo nada sutil, essa falta de empatia, de interesse, esse excesso de loucura que não dá valor pra coisas fantásticas que dificilmente se tem a oportunidade de ver. A música como algo que pode nos levar a tantos lugares, ensinar tanto, trazer tantos sentimentos, lampejos, ter tanta intensidade. Compartilhei isso com amigos que concordaram comigo e sentiram o mesmo: eles simplesmente não entendem. Mas nós entendemos e fomos tocados profundamente pela arte multicultural, essa coisa tão potente que o Brasil é capaz de proporcionar a quem é capaz de ver. 

Visita à gruta.

 Ainda não comecei a escrever meu novo diário. Por algum motivo, ando sentindo atração pelas palavras escritas aqui nesse blog, depois de tantos anos. Ando querendo retomar minhas memórias, quero rever toda minha vida a partir dos diários antigos; ao mesmo tempo que é excitante, é também amedrontador. O que será que o passado tem a dizer sobre mim hoje?

Imaginei um altar a mim mesme, como uma biblioteca da minha vida. Seria bonito. Todos os diários, um do lado do outro, sendo livros como uma série a ser explorada do início ao "fim", sendo o fim, o presente. E que presente. Sinto que é isso mesmo a minha vida agora, um presente que me dei a mim mesme. Um presente artesanal, que fui construindo com o tempo e minhas vivências. E que lindas vivências, mesmo as mais sofridas me trazendo belezas, ternuras, aprendizados e tudo o que sou hoje. Esse tudo que tanto gosto. 

Mas tem algo que preciso deixar morrer, e talvez esse reviver do passado seja parte importante do processo. Talvez esse algo seja tão antigo, que mal percebo sua existência. O que será? Parece que as respostas estão em grutas profundas, aguadas, com estalactites e estalagmites, pingando das pontas, sublimando, refletindo, um lugar que parece que conheço de uma meditação guiada que fiz certa vez. O espaço com as pedras, cujas raízes da árvore que eu era se enozavam e que me fizeram chorar naquela primeira vez que visitei esse espaço na minha mente. Essas lágrimas talvez ainda estejam lá, talvez ainda estejam aqui apesar dessa minha felicidade contemporânea. Tem coisas mais fundas do que posso imaginar. E preciso trazê-las à tona.